‘Higiene é única forma de combater leishmaniose’, diz infectologista ao G1

O aparecimento de casos de leishmaniose no Sul de Minas tem preocupado as autoridades em saúde. Em Lavras (MG), uma campanha de prevenção foi iniciada no final de janeiro, depois que uma menina de 13 anos foi identificada com a forma mais letal da doença, a visceral. Em Poço Fundo (MG), pelo menos duas pessoas manifestaram a versão mais branda, a cutânea, que causa úlceras na pele. Causada por um protozoário, a doença infecciosa crônica é incomum na região. “Manter a higiene é a única forma de combater a leishmaniose”, afirma o infectologista Adelmo Silva Neto.

Segundo a Secretaria de Estado de Saúde de Minas Gerais, nove casos de leishmaniose visceral humana foram registrados em municípios da região, dos quais sete pacientes haviam se deslocado para outras regiões e estados, o que impediu a identificação do local onde a infecção ocorreu. Nas outras duas notificações, a secretaria confirmou que a infecção ocorreu em Alpinópolis, no ano de 2009.

Leishmaniose não é transmissível, mas em alguns casos pode levar a morte; na forma cutânea, causa feridas na pele (Foto: Reprodução/EPTV)
Leishmaniose não é transmissível, mas em alguns casos pode levar a morte; na forma cutânea, causa feridas na pele (Foto: Reprodução/EPTV)

“A doença é comum principalmente nas regiões Centro, Norte, Leste, Noroeste e Nordeste do Estado. A ocorrência de casos de leishmaniose visceral humana na região Sul de Minas Gerais é pouco comum, geralmente são provenientes de outras áreas do estado de Minas Gerais”, explicou o órgão por meio de nota ao G1.

Lavras, MG (Foto: Reprodução EPTV/Tarciso Silva)
Em Lavras, um caso de leishmaniose visceral foi confirmado em janeiro; menina de 13 anos sobreviveu a doença extremamente letal (Foto: Reprodução EPTV/Tarciso Silva)

Ainda conforme a secretaria, em 2014, o estado teve 363 registros da forma visceral da doença, enquanto houve 448 confirmações em 2015 e outras 515 em 2016. “Nos últimos três anos, pode-se observar a tendência de crescimento do número de casos confirmados de leishmaniose visceral no Estado. Dessa forma, as atividades de vigilância e controle da doença devem ser realizadas de forma integrada e contínua, como forma de prevenir a expansão da mesma, a ocorrência de casos e óbitos”, informou a secretaria.

Para o infectologista Adelmo Silva Neto, combater o mosquito que transmite a doença, conhecido popularmente como mosquito-palha, é a melhor prevenção, já que não há vacina contra a leishmaniose e os tratamentos são demorados. Ele explica, em entrevista ao G1, como a doença se comporta e que os cuidados para evitar a proliferação do transmissor são semelhantes aos de combate ao Aedes aegypti, associado à dengue, zika, chikungunya e febre amarela.

Infectologista Adelmo Silva neto tira-dúvidas sobre a leishmaniose (Foto: Daniela Ayres/G1)
Infectologista Adelmo Silva neto tira-dúvidas sobre a leishmaniose (Foto: Daniela Ayres/G1)

G1: O que é a leishmaniose?
Infectologista Adelmo: A leishmaniose é um grupo de doenças. Há quatro principais espectros da doença. A mais simples, menos grave, é a leishmaniose cutânea ou tegumentar, que apresenta úlceras que dão na pele, geralmente em área exposta, como braços, faces, perna. Tem uma forma mais grave da própria cutânea, que chama cutânea difusa, que são lesões generalizadas no corpo inteirinho, lembra muito a hanseníase mesmo. E outra forma cutânea é a muco-cutânea que, além de pegar a pele, pega a mucosa- afeta o septo nasal, gengiva- é o que pessoal chamava de “nariz de anta”, “úlcera de bauru”.Mas nada se compara à leishmaniose visceral, também conhecida popularmente como calazar. E cada uma dessas é causada por uma espécie diferente do gênero leishmania. A leishmania não é uma bactéria nem um vírus. É um protozoário. Ela tem várias espécies e cada uma é responsável por cada forma.

G1: Quais sintomas a doença apresenta?
Adelmo: As formas cutâneas apresentam úlceras. O que diferencia uma da outra é onde essas lesões aparecem. A visceral é causada pelo [protozoário] leishmania chagasi. É totalmente diferente da tegumentar. É uma doença sistêmica, que ataca o corpo inteiro. Os primeiros sintomas, às vezes, são fraqueza, adinamia [fraqueza muscular], sonolência, fadiga extrema. É uma doença muito difícil de identificar porque os sintomas são muito gerais. Os sintomas mais específicos aparecem, infelizmente, quando a doença já está mais avançada. A barriga começa a crescer porque o baço aumenta, febre muito alta, que não passa. Dos quatro tipos de leishmaniose é a de maior letalidade, mas tem tratamento.

leishmaniose, Sul de Minas (Foto: Reprodução EPTV/Edson de Oliveira)
Leishmaniose cutânea causa lesões na pele (Foto: Reprodução EPTV/Edson de Oliveira)

G1: E como é feito o diagnóstico?
Adelmo: As formas cutâneas podem ser identificadas por exame de sangue, mas o diagnóstico mais eficaz é feito a partir do esfregaço da lesão, que é analisado por um patologista. A visceral depende do exame de sangue ou biópsia do baço, para localizar o protozoário.
G1: A leishmaniose deixa sequelas?
Adelmo: Para os casos de leishmaniose cutânea, a sequela é mais estética. Nunca vi um caso que não deixasse uma cicatriz. Na forma mais grave da cutânea, que é a muco-cutânea, por atingir as mucosas, o paciente pode ter uma sinusite crônica, por exemplo. Na visceral, a pessoa vai ficar mais fraca, mais sujeita a anemia, há piora do condicionamento cardiovascular, porque é uma doença que ataca o fígado e a medula óssea. Com o tempo, o paciente vai se recuperando, mas pode deixar sequela sim.

mosquito-palha, flebótomo, leishmaniose, Sul de Minas (Foto: Reprodução EPTV/Tarciso Silva)
Combater o mosquito-palha é solução para evitar novos casos de leishmaniose no Sul de Minas


G1: O Sul de Minas registrou alguns casos de leishmaniose este ano. No único caso da forma visceral, a paciente conseguiu se recuperar. Mesmo assim, a preocupação em torno da proliferação da doença surgiu. O senhor costuma ver casos de leishmaniose na região?
Adelmo: Aqui no Sul de Minas é incomum. Eu nunca tratei esses casos aqui. A forma cutânea é mais comum no Norte e Nordeste do país. A visceral existe em Minas, mas em outras regiões, que são endêmicas.

G1: E como ocorre a transmissão?
Adelmo: O transmissor é o flebótomo, conhecido popularmente como mosquito palha. Ele transmite o protozoário por meio da picada. Os cães são hospedeiros da leishmaniose visceral. Eles não transmitem a doença, assim como ela não é transmitida entre humanos. Mas o mosquito pode picar o cachorro que está com a doença e se infectar.

Rio Machado, Poço Fundo (Foto: Reprodução EPTV/Edson de Oliveira)
Locais úmidos e sem limpeza adequada favorecem a proliferação do mosquito-palha (Foto: Reprodução EPTV/Edson de Oliveira)

G1: E quais as formas de controle existentes?
Adelmo: Não existe vacina contra a leishmaniose. Manter a higiene é a única solução para combater o transmissor. Quando o cachorro está infectado, a eutanásia, o sacrifício do animal, embora eu não concorde, é a única medida existente porque o tratamento humano não é eficiente para os cães. No final do ano passado, foi aprovado no Brasil um tratamento específico para os animais, que pode ser uma solução, mas ainda é pouco conhecido no país. A melhor prevenção mesmo é cuidar da higiene: manter os quintais limpos, evitar a água parada, evitar o ambiente úmido, sem folhas, fazer a pulverização, usar roupas que cobrem o corpo, repelentes, telas para proteção em áreas endêmicas. A responsabilidade tem que ser dividida, não só do poder público, mas nós, cidadão, temos que ter os cuidados para erradicar o mosquito. Talvez esse descuido da população que possa ter propagado um pouco mais o protozoário, além de alterações ambientais, como o desmatamento, que influencia na propagação da doença.

Fonte: G1 Sul de Minas

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