Zimbabué quer recuperar milhões desviados por Mugabe

Os tabloides da África do Sul estão cheios de histórias sobre as “riquezas incalculáveis” que o ex-presidente do Zimbábue Robert Mugabe e sua família teriam acumulado ao longo de 37 anos no poder. Quanto de fato foi desviado dos cofres públicos não se sabe, mas estimativas apontam para até US$ 1 bilhão.

Apenas as festas de aniversário de Mugabe teriam custado em torno de US$ 2 milhões, com cerca de US$ 500 mil só para champanhe e caviar. Além de uma mansão em Harare com 25 quartos, avaliada em 8,5 milhões de euros, o ex-chefe de Estado do Zimbábue detém pelo menos outras quatro moradias de luxo em Hong Kong e o Palácio de Hamilton, em Sussex, na Inglaterra, avaliado em mais de 400 milhões de euros.

Além disso, há que contabilizar ainda mais de 15 mil hectares de terras, que incluem áreas expropriadas de antigos proprietários brancos. Algumas dessas propriedades foram convertidas em retiros privados e resorts. Mugabe possui também veículos blindados, alguns deles Mercedes, no valor de 1 milhão de euros, um Rolls-Royce, diversas joias, relógios, diamantes e aplicações financeiras.

A sua esposa, Grace Mugabe, foi apelidada de Gucci Grace devido ao seu estilo de se vestir e ao gosto por artigos de luxo. Além de roupas, ela tem uma conhecida predileção por joias: quando um anel de diamantes no valor de US$ 20 milhões, que ela havia encomendado para seu 20º aniversário de casamento, não chegou a tempo, ela processou o joalheiro libanês. Em 2014, Grace chegou a defender o marido, dizendo que ele era o “presidente mais pobre do mundo”.

Os dois filhos do casal também apreciam uma vida de luxo. Chatunga Mugabe, por exemplo, viveu numa moradia em Dubai com uma aluguel de 30 mil euros, antes de se mudar para uma residência em Joanesburgo, na África do Sul, pela qual pagava “apenas” US$ 4 mil. Por causa das festas que promovia, acabou expulso de lá.

Recuperar o dinheiro desviado

O ministro das Finanças do Zimbabué entre 2009 e 2013, Tendai Biti, foi confrontado com a corrupção no governo de Mugabe. “O meu maior desafio não foram os milhares que Mugabe roubou, mas os milhões que desapareceram. Hoje sabemos que foram cerca de US$ 15 milhões, uma elevada quantia”, relata Biti. Para ele, uma das principais tarefas do novo governo será recuperar o dinheiro.

“Esse dinheiro pertence ao Zimbábue e deve regressar ao país. É cerca de US$ 1 bilhão que pertence aos zimbabuanos. Será um teste para o novo governo localizar esse dinheiro, mas hoje em dia é fácil. Com todas as regras financeiras internacionais contra a lavagem de dinheiro e de promoção da transparência, deverá ser uma tarefa fácil”, estima Biti.

No entanto, Paul Holden, diretor da organização sem fins lucrativos Corruption Watch, avalia que será difícil rastrear o dinheiro de Mugabe. Trazer o dinheiro de volta ao Zimbábue “depende de vários fatores: em primeiro lugar, é preciso descobrir a quantidade de ativos de Mugabe e onde exatamente eles estão. Caso contrário, poder ser muito difícil conhecer o rastro do dinheiro. A maioria provavelmente está no exterior, em paraísos fiscais. Pode levar muito tempo e também ser bastante difícil”, alerta Holden.

Mesmo que se venha a saber onde estão os ativos, será muito difícil provar que o dinheiro foi roubado do Zimbábue, acrescenta o diretor da Corruption Watch. Outros casos mostram o quão difícil pode ser o processo. O ex-presidente da Nigéria Sani Abacha teria conseguido gastar US$ 5 bilhões em receitas de petróleo fora do país durante seu mandato entre 1993 e 1998. Mas, apenas depois de 16 anos, uma pequena parte do dinheiro roubado foi recuperada pela Nigéria.

Será Mnangagwana uma verdadeira alternativa?

Outra questão que fica é se o sucessor de Mugabe, o antigo vice-presidente Emmerson Mnangagwana, é o homem certo para promover esse desenvolvimento.”Mnangagwa foi um aliado próximo de Mugabe por mais de 30 anos. Como tal, foi parte do sistema corrupto. Então, a maior parte dos observadores é cética sobre se ele realmente será diferente do seu antecessor”, observa Holden.

“Ainda assim, nossa esperança é que a destituição de Mugabe seja o ponto de partida para a transformação do Zimbábue num estado democrático”, acrescenta Holden. Mnangagwana regressou ao Zimbábue na quarta-feira (22), a fim de tomar posse nesta sexta-feira.

Fonte: G1

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