Brasileiro vai a vilas do Nepal para documentar reconstrução do país

02Como falar sobre gente em um país coberto por escombros, reconstruções, vacas sem dono, luto? De que jeito pedir licença para bater uma foto de rostos que, há menos de três meses, inevitavelmente expressavam medo e desamparo? O fotógrafo paranaense Rafael Saes, de 28 anos, aceitou o desafio de retratar como os moradores do Nepal, país atingido por um devastador terremoto em 25 de abril, tentam se reerguer.

Os tremores deixaram mais de 8,5 mil pessoas mortas e outras milhares feridas, de acordo com as autoridades locais. É o desastre mais fatal registrado no país. Muito das ruínas, relata o documentarista, ainda está empilhado pelas ruas.

A viagem do brasileiro durou 12 dias. Atrás de quem sofreu com a tragédia, ele caminhou pela capital, Catmandu, e por vilarejos enfiados aos pés da Cordilheira do Himalaia. Precisou da ajuda de um nepalês para se comunicar e entender o cotidiano dos locais. A ideia era, segundo ele, imergir no universo daquele povo, antes de fazer as fotos.

“Para fazer as fotos, eu convivia com as pessoas antes. Um ponto chave é que um nativo, de confiança deles, estava nos guiando, traduzia tudo na língua deles. Sem ele, ficaria muito difícil. Mesmo assim, víamos olhares receosos, crianças assustadas. Tinha gente lá que havia visto ‘gente branca’ duas, três vezes”, conta Saes sobre um dos vilarejos que visitou.

O nativo era Pemba Sherpa, montanhista e guia turístico renomado pelo seu conhecimento sobre o Monte Everest, cujo pico ele já alcançou várias vezes. Ao paranaense, o nepalês contou que era a primeira vez que um brasileiro pisava na vila em que nasceu, chamada Patle. O local só é acessível depois de vencidos 200 quilômetros de estrada com chão ruim e mais 30 quilômetros de caminhada.

No país de 28 milhões de habitantes, mais de 8 milhões foram afetados pela tragédia. Uma porção deles não tem mais teto ou documentos para apresentar, de acordo com Saes. Sobrevivem apenas com a ajuda de doações, que (quando chegam) vêm de toda a parte do mundo.

Em uma das vilas nepalesas, o brasileiro lembra que não havia nem banheiro para usar. “Faça onde quiser, mas sem que ninguém veja”, disse a ele um dos locais. Mesmo assim, diz o fotógrafo, a recepção era calorosa, fosse em vilas remotas ou na região central da capital.

“Em uma das visitas, dormi na casa de um casal, com três ou quatro filhos, para entender melhor a realidade deles. Eles davam o melhor lugar da casa para a gente, sempre. Na ocasião, a família dormiu na cozinha para que ficássemos no quarto”, afirma.

O cenário nas ruas era de guerra, compara o fotógrafo. Muito prédio sendo reconstruído, muito desemprego (e, por consequência, pessoas ociosas), muita casa no chão. Ficou na memória do brasileiro a fala de um homem, de cerca de 40 anos, sobre seu lar: “Trabalhei a vida toda para construir minha casa. Vivi para isso. Quando acabei, o terremoto veio e destruiu tudo”.

Ao fim da viagem, ficaram mais de mil fotos documentadas, divulgadas aos poucos por meio do Instagram de Saes. Além de retratos, ele diz ter trazido a lição de que sempre é possível ajudar.

“Não que o Brasil não tenha problemas. Claro que tem, mas você começa a imaginar a quantidade de gente, ali [no Nepal], que perdeu pai, mãe, filho, casa. Observando o que eles estão passando, não dá para ficar parado. Sempre tem alguma forma de ajudar, mesmo de longe”.

Na bagagem, também veio mais vontade de ajudar pessoas, afirma. “O que eu sei fazer? Fotografar. É com isso que quero impactar as pessoas, socialmente. A ideia é fazer com que as fotos cheguem ao maior número de pessoas e crie nelas a vontade de ajudar outras. Que seja o vizinho, que seja no próprio bairro. Quando as pessoas saírem da zona de conforto, o mundo vai ficar melhor”.

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