Twerk ajuda a libertar o corpo e trabalhar a autoestima

“Eu me amo, eu sou maravilhosa, eu sou muito gostosa, e que amanhã seja melhor que hoje”. Ao repetir essas palavras em frente ao espelho seguidas de um “amém” em uníssono, com uma mão no coração e a outra apontada para o céu, mulheres de várias idades, diferentes formatos de corpos, religiões e objetivos iniciam as aulas de twerk no Maletta, na região Central de Belo Horizonte.

A dança que tem raízes africanas, foi ganhando nuances com o passar do tempo, pegando novas roupagens e movimentos por onde passava, e com grande popularidade nos guetos norte-americanos, finalmente ganhou o mundo. Foi nos corpos de cantoras como Miley Cyrus, Rihanna e Nicki Minaj que o twerk ganhou ainda mais visibilidade. Com movimentos hipnóticos concentrados principalmente nos quadris, é difícil encontrar uma mulher que não se sinta poderosa ao descobrir todos os movimentos que o próprio corpo é capaz de fazer. A autoestima agradece.

E esse foi justamente o objetivo da dançarina Paola Brito, pioneira do twerk em Minas Gerais, ao instalar seu Studio Afrodite na capital. “A ideia é o empoderamento feminino, o amor próprio, para que cada uma consiga se enxergar e se amar da forma que é. Porque nos é imposto o tempo todo um padrão de beleza que a gente teoricamente tem que seguir. Mas ninguém é igual a ninguém, todas nós temos diferentes formatos, ideias, vivemos coisas diferentes. Como que podemos ser iguais a mulher que está na capa da revista? E por que eu deveria me sentir mal por não ser daquela forma? Eu tenho que me sentir incrível e amar o meu corpo da forma que ele é”, conta.

Alunas e professora no Studio Afrodite

As aulas são voltadas prioritariamente para mulheres, mas também são abertas ao público gay masculino, embora não seja o público-alvo. “Mas é que o Studio Afrodite é um espaço para aceitar todas as pessoas e para elas se aceitarem também. É um espaço para transmitir e receber amor”, diz, ainda.

Desde novembro do ano passado, Paola oferece as aulas de twerk e a procura tem sido cada vez maior. Ela conta que, atualmente, recebe 10 mensagens por dia de alunas em potencial. Com horários diversos e preços acessíveis, o twerk tem sido difundido na capital por meio de grupos de mulheres e nas redes sociais. Mas a melhor divulgação, segundo Paola, ainda é o boca-a-boca.

“Todo mundo tem vontade de aprender, e com essa vontade que eu também tive eu passei para as outras pessoas, então, cada dia mais tem gente querendo fazer parte da família Afrodite, graças a Deus”, comemora. E os motivos para a procura pelas aulas, são vários. “Como o publico é diversificado, também os motivos são diferentes. Tem pessoas que querem aprender porque gostam de dançar na balada, mas tem gente que quer trazer essa autoestima para a vida, ou ainda gente que nunca dançou na vida e decidiu aprender”, explica.


Para conhecer o Studio Afrodite e contactar Paola o melhor canal é o Instagram @afrodite_studio.

Currículo

A paixão pela dança começou desde cedo, mas Paola Brito só conseguiu entrar na aula de balé clássico aos 12 anos. Após isso, ingressou no Valores de Minas, programa do governo estadual para ajudar alunos de escolas públicas a terem acesso à arte e à cultura. Lá, ela teve contato com diversos tipos de dança como contemporânea, dança de salão, dança afro e dança de rua. Quando precisou sair do projeto, Paola ganhou uma bolsa para estudar o balé clássico e o jazz no Núcleo Artístico Floresta, até que passou a integrar um projeto de dança folclórica da UFMG chamado Sarandeiras, onde teve contatos com diversos estilos regionais e professores de todo o país.

“Mas aí tive que sair por problemas familiares, e comecei a dar aula de dança nas praças públicas de BH a preços acessíveis para mulheres com problemas de autoestima, mães etc. A ideia era manter a minha terapia, que é a dança, e também poder mostrar a essas mulheres o quanto elas eram maravilhosas independentemente de tudo o que tinha acontecido na vida delas”, conta. Com o apoio do marido, ela decidiu apostar no twerk e fundar o Studio Afrodite.

FOTO: MARIELA GUIMARAES / O TEMPO
Magazine - Especial - Belo Horizonte MG
Twerk invade Belo Horizonte . Nova modalidade de dança e febre na capital mineira

FOTO: MARIELA GUIMARAES / O TEMPO 27.7.2017
Paola Brito dança desde os 12 anos e resolveu instalar o twerk em BH

Espaço seguro para mulheres

Para as alunas de twerk, o Studio Afrodite é um “safe space”, ou seja: um espaço seguro para as mulheres, onde o mito da competição feminina, tão difundido para estimular a desunião entre elas, é completamente desmistificado. Por outro lado, o lema de que “a união faz a força” é levado a sério e posto naturalmente em prática. Quando uma dá força a outra para superar os movimentos mais ousados, todas ganham. “Eu sempre tive problemas com meu corpo porque sou muito magra. Quando era mais nova, eu só usava calça comprida de tanta vergonha das minhas pernas. Hoje em dia eu fico quase pelada nas aulas e estou me sentindo linda, isso ajuda muito”, conta a designer Débora Vieira, 23.

A opinião é reforçada pela colega de turma, Daniele Martins, 23, que trabalha em uma agência de publicidade. “Aqui a gente realmente se sente linda e repetimos isso nas aulas não para os outros, mas pra gente mesma. Quando entramos na sala de aula, é só energia boa”, conta.

A jornalista Thaís Maciel, 25, conta que começou as aulas para dançar igual à Rihanna e se surpreende cada dia mais com os resultados. “Acho que não tem nome melhor para o estúdio do que ‘Afrodite’, que é a deusa do amor. Porque não tem amor mais importante que o amor-próprio e é exatamente o que a gente pratica nas aulas. Não houve nenhuma aula que eu senti algum tipo de competição ou julgamento, pelo contrário, é sempre uma dando força pra outra e vibrando pelas vitórias”, relata.

Já a designer Thais Goetz, 29, começou a dançar há cerca de um mês e encontrou no twerk uma forma de terapia. “É claro que uma atividade física não substitui a terapia, é até irresponsável falar isso. Mas por causa de dinheiro, precisei fazer uma escolha e decidi continuar no twerk. Eu estava vindo de um período longo de falta de carinho comigo mesma, muita exigência, muita cobrança, e quando fiz a primeira aula e começamos a oração do amor-próprio, eu fiquei tão emocionada porque naquele momento enxerguei que o que estava faltando era eu me amar mesmo, ter mais carinho comigo”, lembra.

A advogada Bruna Rocha, 26, conta que não tem problemas de aceitação com o próprio corpo, e as aulas só vieram confirmar isso. “Sempre tive consciência forte e fincada no que se refere à minha autoestima e ao meu corpo e sou muito grata por isso, inclusive, pois sei que muitas mulheres, senão a maioria, sofre internamente por essas questões. As aulas para mim são uma confirmação daquilo que sou, que penso e que pratico. Sentia falta disso em Belo Horizonte e veio em ótima hora. O clima da aula não poderia ser melhor, há uma troca muito gostosa, fluída e linda de carinho, admiração e trabalho em equipe”, descreve.

A troca envolvida nas aulas não atinge só as alunas. A professora Paola Brito também é diretamente afetada. “É claro que eu não sou de ferro, tem dia que eu estou triste também, não tem como fingir que nada acontece, e já houve situações de eu precisar de um conselho ou de uma energia boa e receber um abraço de uma roda de 12 meninas só pra eu me sentir amada. O que eu recebo em troca é só amor, porque é o que eu também transmito para elas. Eu não vejo a Afrodite só como uma escola de dança, é uma família mesmo”, conta.

FOTO: MARIELA GUIMARAES / O TEMPO
Magazine - Especial - Belo Horizonte MG
Twerk invade Belo Horizonte . Nova modalidade de dança e febre na capital mineira

FOTO: MARIELA GUIMARAES / O TEMPO 27.7.2017
Troca envolvida nas aulas afeta alunas e professora

Libertação

A autoestima é trabalhada nas aulas a partir do momento em que a aluna se enxerga no espelho e percebe que seu corpo é capaz de fazer qualquer movimento. Para a professora Paola Brito, o que falta é o estímulo. “Muitas vezes a gente tem limitações de movimentos simplesmente porque não foi incentivado a se mover na hora certa, ainda na infância. A gente aprende a só fazer coisas mecânicas como abaixar para pegar um copo, lavar vasilha, caminhar, correr para pegar o ônibus. Não somos incentivados a trabalhar o corpo de forma diferente, então, quando você aprende novos movimentos e descobre o que o seu corpo é capaz de fazer, é uma libertação”, explica Paola Brito.

FOTO: MARIELA GUIMARAES / O TEMPO
Magazine - Especial - Belo Horizonte MG
Twerk invade Belo Horizonte . Nova modalidade de dança e febre na capital mineira

FOTO: MARIELA GUIMARAES / O TEMPO 27.7.2017
Twerk é espaço de auto-conhecimento e troca entre mulheres

Fonte: O Tempo

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