“Sepultura Endurance”: Os embaixadores do metal

Das arcaicas fitas cassete que um grupo de garotos moradores do bairro Santa Tereza, em Belo Horizonte, gravava na tentativa de divulgar seu trabalho até o reconhecimento internacional, o documentário “Sepultura Endurance”, que rebobina 30 anos de trajetória da banda brasileira mais conhecida no mundo, tem pré-estreia nesta quarta-feira (14) em várias cidades brasileiras, Belo Horizonte inclusa, com sessão especial para os fãs, incrementada por vários extras que não entraram no corte final. O filme, do diretor paulista Otávio Juliano, que estreou em Los Angeles no último dia 21, chega aos cinemas brasileiros precedido por uma polêmica que reverberou entre os fãs: a recusa dos irmãos Max e Iggor Cavalera em participar do projeto e o veto que eles impuseram à execução de alguns dos principais sucessos do Sepultura.

“Como diretor, como realizador, sempre estive preparado para a não participação deles. Eu respeito a posição deles de não participar do filme. Ao longo dos anos tiveram muitas rusgas, mas o filme é muito honesto de falar da importância deles no Sepultura e da relação deles com a banda. O DNA que eles imprimiram está lá, marcado”, diz Juliano, evocando a turbulenta saída de Max Cavalera do grupo, em 1996, logo após o lançamento do álbum “Roots”, e a de seu irmão, dez anos depois. “Mesmo sem a presença deles, queria que fosse um filme honesto, respeitoso. O que tenho a dizer é só que lamento muito”, completa o diretor. Max e Iggor se recusam a falar sobre o assunto.

Foi Juliano quem procurou a banda, há oito anos, com a proposta de realizar um documentário. A partir daquele momento, ele circulou com o grupo em turnês mundiais ao longo de seis anos, registrando shows e colhendo depoimentos. O diretor conta que, depois de seu documentário anterior, o premiado “A Árvore da Vida”, com o qual ficou envolvido dois anos, não pretendia mais gastar tanto tempo com um único trabalho, mas o próprio desenrolar do processo demandou uma adesão mais longa.

“Tem um lado bom, porque a história se desenvolve na sua frente, daí vêm grandes momentos, como a saída do Jean Dolabella (baterista que substituiu Iggor Cavalera). Eles estavam no ônibus, conversando, o Jean expondo o lado dele, o Andreas Kisser (guitarrista) ponderando, eu lá junto. Peguei a câmara e comecei a filmar sem que eles nem percebessem”, diz. Por ser fã de outrora do Sepultura e de rock pesado em geral, ele destaca que o processo foi todo muito orgânico. “A maneira como eu trabalho é a seguinte: você está presente e deixa as coisas acontecerem na frente da câmera. Segui esse caminho, estive aberto a tudo o que acontecesse”, salienta.

Além de estar presente quando Jean Dolabella resolveu deixar a banda e registrar isso no calor da hora, Juliano destaca que outro momento marcante de seu périplo de seis anos acompanhando a banda foi a passagem por Belo Horizonte. “Sempre na expectativa de que os outros integrantes topassem participar do filme, deixei Belo Horizonte por último. Não tinha certeza se ia colocar a história em BH no filme, mas depois senti que estava maduro em termos de biografia da banda, já tinha passado muito tempo com eles. No documentário, o João Gordo fala da cena de BH, que era muito diferenciada do que acontecia no resto do país, então era muito lógico filmar na cidade que foi o berço do grupo”, aponta.

Show. Cena do documentário com o Sepultura em ação no palco

Entre andanças de Andreas Kisser e do baixista Paulo Xisto por pontos emblemáticos da história do Sepultura na capital mineira e registros de shows mundo afora, o documentário traz depoimentos de alguns dos maiores expoentes do heavy metal mundial, como Lars Ulrich, do Metallica; Scott Ian, do Anthrax; Phil Anselmo, do Pantera; e Corey Taylor, do Slipknot, entre outros, o que dá a dimensão da importância do Sepultura em âmbito global. “Eles tiveram extrema boa vontade, foram entrevistas enormes, de uma hora, duas horas, e a gente conversou sobre tudo. A admiração desses artistas pelo Sepultura é latente. Pelas críticas que ouvi até agora, o público está captando essa coisa de aonde o Sepultura conseguiu chegar, e como isso é importante. Na segunda metade dos anos 80, a gente tinha fanzines, tinha a ‘Rock Brigade’ aqui em São Paulo, que ainda era uma folha de papel batida à maquina, e a galera gravava fita cassete para mandar para esses veículos. Daí o Sepultura começou a mandar também para o exterior, e nesse esquema eles explodiram, uma coisa contra todas as possibilidades. Como conseguiram isso sem YouTube, sem internet? O que eu quis foi mostrar isso, como era aquela época, como era a cena do metal em BH quando o Sepultura surgiu, e como, a partir daquele momento, eles se tornaram uma referência internacional”, destaca.

A força daquilo que se conta

Mas como ressalta o próprio diretor, Otávio Juliano, a força da história que o documentário conta está nela própria, e isso dispensa ornamentos estilísticos. Com efeito, acompanhar a trajetória de uma banda surgida num mundo pré-globalização, sem internet, formada por garotos que mal sabiam tocar – conforme destaca Jairo Guedes, guitarrista da primeira formação –, e que conseguiu, contra todos os prognósticos, se tornar uma expressão mundial, referência para vários grupos de vários países, é digno de registro.“Sepultura Endurance” é um documentário convencional, que não quer reinventar a roda em termos narrativos e nem de estrutura. Imagens de shows se alternam com depoimentos dos integrantes da banda, com imagens de arquivo e com a participação de pesos-pesados do cenário heavy metal expressando sua admiração pelo Sepultura. O recorte histórico também é resolvido de forma correta e sem riscos, com o testemunho de nomes que orbitaram os primeiros anos do grupo, como Jairo Guedes e Sílvio “Bibica” Gomes, e passagens por pontos-chave da primeira infância do Sepultura em Belo Horizonte, como a loja Cogumelo e a casa do baixista Paulo Xisto, onde o grupo ensaiava.

O diretor recupera a trajetória de 30 anos da banda de forma sóbria e objetiva, por meio das recordações de seus membros e de imagens de arquivo, sem a preocupação de uma cronologia rígida. “Memórias não são lineares”, ele diz. E são apenas nessas memórias que Max e Iggor Cavalera, irmãos fundadores do Sepultura, aparecem. Se, por um lado, a recusa deles em participar do projeto deixa no espectador o sentimento de uma lacuna a ser preenchida, por outro é fato que isso não chegou a comprometer o produto final.

Otávio Juliano, aliás, fez a opção por não dramatizar a conflituosa relação dos irmãos Cavalera, depois que deixaram o barco, com o restante da banda. Não há lavação de roupa suja, como acontece, por exemplo, no documentário “Some Kind of Monster”, do Metallica. Num dado momento, Andreas Kisser comenta a saída de Max. Diz que o envolvimento do vocalista com a então empresária da banda, Gloria, representou o momento de cisão, porque ela começou a se empenhar em colocar Max num degrau acima dos outros integrantes. Ele conta isso sem demonstrar qualquer traço de mágoa.

O fato de Max e Iggor só aparecerem nas imagens de arquivo também não chega a ser uma questão para o documentário, que não se ocupa em revelar como é, hoje, a relação dos irmãos Cavalera com o restante da banda. Tampouco se ocupa em lançar julgamentos sobre aquele momento de fratura na trajetória da banda, quando, logo depois de lançar seu álbum de maior sucesso, “Roots”, houve o racha.

A presença de alguns dos maiores expoentes do metal no mundo, de bandas como Metallica, Anthrax, Megadeth e Motörhead, expressando sua admiração pelo Sepultura, também representa uma chancela para o filme, cujo resultado é instrutivo e de fácil digestão para quem não conhece a história do grupo e, sem dúvida, saboroso para quem acompanha a banda.

Fonte: O Tempo

 

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