“Sempre achei estranho um canal ter monopólio”, diz Aguinaldo Silva

Aguinaldo Silva foi o convidado do Roda Viva de ontem (11) e voltou a dar sua opinião sobre beijos entre homossexuais nas novelas. “O autor não escreve para ele, mas para o público. Você escreve para 60 milhões de pessoas e nem todo mundo mora em Ipanema ou Leblon. Sempre penso na minha mãe. Você tem que saber como avançar. Se você provoca rejeição você provoca queda de audiência, queda na publicidade, pavor na emissora”, disse o autor, um dia antes da primeira cena de sexo entre homens da TV brasileira, prevista para acontecer no capítulo de hoje de Liberdade Liberdade. (Vale lembrar que a entrevista foi gravada semanas atrás).

Aguinaldo também deu a sua explicação para o êxito da primeira temporada de Os Dez Mandamentos, da Record: “É o maior melodrama de todos os tempos. O Antigo Testamento está cheio de grandes melodramas. O sucesso se deveu a isso. Toda vez que fizerem uma versão dos Dez Mandamentos vai fazer sucesso”. O autor usa a mesma teoria para explicar os recordes de audiência de Totalmente Demais: “É Pigmalião. Vai fazer sucesso sempre. Como Os Dez Mandamentos”.

Autor de Império, última novela das 21h a superar os 30 pontos de média geral, Aguinaldo disse que não se incomoda em dividir público – “Acho ótimo ter concorrência. Sempre achei estranho um canal ter monopólio” – e comentou a queda de audiência do horário de novelas mais visado: “Não acho ético falar do trabalho dos meus colegas. Não vou fazer julgamento. As pessoas ligam, sim, a televisão no horário das 21h. As pessoas não estão vendo menos as novelas, estão vendo outras coisas…”.

Como ninguém vive só de sucessos, Aguinaldo relembrou Suave Veneno, problemática novela exibida em 1999. “Tinha uma belíssima história e não sabia como contar. Errei no começo. E consertei”, disse o autor, que ressaltou: “Quando a novela dá errado você tem que sentar o rabo e consertar”.

O autor elogiou o colega Sílvio de Abreu, agora no comando das novelas da Globo. “O Silvio está botando ordem da orgia. Agora tem uma organização e ele abriu o leque de autores”, disse Aguinaldo, fazendo uma ressalva sobre os novos roteiristas: “Você não se revela com uma novela só. Estou esperando que eles façam outras. Demorei cinco ou seis novelas para entender o mecanismo”.

Preparando sua próxima novela, prevista para estrear em 2018, Aguinaldo confirmou que vai retomar o realismo fantástico, mas sem carregar nas tintas. O autor ainda criticou a realização de remakes e descartou a releitura de um de seus maiores sucessos: “Não é possível. Tieta (1989) é como E o Vento Levou. É definitiva”.

Veja outros trechos da entrevista:

“No futuro, se alguém quiser saber como foi o Brasil do século 20 vai procurar nas novelas. Elas pintaram o retrato, ainda que exacerbado, de como é o Brasil. Embora não seja tratada como uma coisa séria, ela é muito séria, sim”.

“O grande problema das novelas é que os autores ficaram meio envergonhados de fazer novela e começaram a fazer antinovela. Nem melodrama nem folhetim. O publico quer ver herói e vilão”

“Os autores absorvem muita coisa dos seriados. Império absorveu a agilidade, por exemplo. Mas você tem que falar a linguagem do espectador. Não pode ser uma linguagem intelectual. Por mais que os temas sejam sérios, têm que ser populares, tratados com leveza”

“Trabalho de 7h ao meio-dia, faço um lanche, durmo, retomo às 14h e trabalho até as 19h. Depois vejo novela, noticiário, novela, ligo pro diretor. À 0h30 vou dormir”

“Eu me considero um conservador. Me tornei uma pessoa muito careta e afeito à solidão. O novelista precisa da solidão para escrever. Nos prédios onde moro, a pessoa mais bem comportada sempre sou eu”

 

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