Rihanna esquece hits óbvios e faz de ‘Anti’ um álbum ‘do contra’

Não tem hit dançante arrasa-quarteirão. Não tem batida de David Guetta, Avicii ou Calvin Harris. Não tem refrão chiclete da Sia nem produção genérica de Max Martin ou Dr. Luke. Não tem os singles do ano passado que poderiam muito bem entrar aqui: “FourFiveSeconds” e “Bitch better have my money”. Rihanna não pegou atalhos para o sucesso em seu oitavo disco.

“Anti” é um disco do contra. Até o lançamento aconteceu de um jeito esquisito. Depois de quatro anos de espera, a cantora que antes lançava álbuns anualmente viu seu aguardado novo trabalho vazar. O disco saiu antes da hora na plataforma de streaming Tidal, do seu chefe Jay-Z. Depois da trapalhada, o jeito foi liberar as músicas e até dar downloads livres para os fãs.

Com menos amarras, Rihanna explora sua própria voz, da sombria “Desperado” à doce “Never ending”. As letras gravitam entre sexo, drogas e viagens introspectivas. A maior surpresa é uma versão de “New person, same old mistakes”, da banda de rock psicodélico australiana Tame Impala. Rihanna atira para vários lados e acerta na maioria em “Anti”.

1 – “Consideration” – O início forte tem baixo sampleado de “Be (Intro)”, do rapper Common. Promete um disco mais dançante do que o que há por vir. Parceria com a cantora de R&B SZA.Rihanna canta: “Let me cover your shit in glitter / I can make it gold, gold” (em tradução mais suja, “Me deixe cobrir sua m* com glitter / Posso transformer em ouro”. A letra mostra o desejo de poder e independência com melodia sutil e poderosa.

2 – “James Joint” – Quase uma vinheta, ou uma música incompleta e lenta, de menos de dois minutos. “Prefiro fumar maconha sempre que a gente se beija”, ela canta. É um disco bem maconheiro.

3 – “Kiss it better” – Nos anos 90, os segmentos românticos das rádios se dividiam entre hard rock farofa e cantoras de R&B.  Imagina se estas duas forças se juntassem para transformar o mundo em um grande motel? É o que rola aqui. O riff de guitarra é de ninguém menos que o português Nuno Bettencourt, de “More than words”, do Extreme. Já é favorita para novo single, em enquete da revista “Billboard” dos EUA.
4 – “Work” – Parceria com Drake, é o primeiro single, não por acaso: é a única faixa mais agitada com pinta de música de trabalho. Tem horas que parece que ela ficou com preguiça de terminar a música e só balbucia as palavras. Mas não deixa de ser um dos pontos altos de “Anti”.

5 – “Desperado” – Hip hop mais pesado e sombrio, é uma egotrip pessimista à Kanye West. Ela narra um caso de amor e fuga com um fora da lei. Mick Schultz, produtor em ascensão no rap, ajuda a arredondar essa faixa poderosa.

Rihanna toca no Palco Mundo neste sábado (26) (Foto: Luciano Oliveira/G1)
Rihanna toca no Palco Mundo do Rock in Rio (Foto: Luciano Oliveira/G1)

6 – “Woo” – A faixa mais estranha do disco é toda distorcida e começa intensa, mas não engata. Parece uma gravação ruim de show no YouTube, daquelas com o áudio estourado. Com referência a cocaína e um romance mal resolvido, tem a mão do novo queridinho do pop The Weeknd.

7 – “Needed me” – Rihanna mostra sua face “pegadora”: “Você era só mais um na minha lista”. E ainda avisa para o cara não ficar apaixonado. Batida forte, mas lenta. Sem economizar floreios vocais, canta as palavras “you needed me” com umas 40 sílabas.

8 – “Yeah, I said” – Entre os compositores estão Timbaland e Daniel Jones, um dos membros do duo australiano Savage Garden.  Ainda mais arrastada que a anterior. Tem alguns efeitos agudos repetidos no fundo que estão em voga no pop, vide o último disco do Justin Bieber.

9 – “Same ol’ mistakes” – Versão de “New person, same old mistakes” da banda australiana (de novo uma mão da Austrália) Tame Impala. Não muda o arranjo original, é quase um karaokê. Mas a voz dela combina com a música. A faixa prova que a teoria do monogênero chega ao extremo de não diferenciar uma estrela pop de rádio de um queridinho indie.

10 – “Never ending” – Balada acústica que lembra “Thank you”, de Dido. Tanto que a britânica foi creditada no registro da composição. Voz mais docinha que nem parece Rihanna. Volta a chorar as pitangas em um disco mais down. “Não tinha que ser tão estranho”, ela diz para o seu amado. Mas poderia ser uma frase de fã mais pop para RiRi sobre o disco.

11 – “Love in the brain” – Ótima balada com levada de doo wop em que ela capricha na voz dramática. Essa é para Rihanna fechar a mão e se contorcer nos shows. Pode entrar nas paradas ou em alguma novela ou filme como trilha de um casal bem chicletinho.

12 – “Higher” – “Esse uísque me fez sentir bonita”, ela canta no início. Não precisa beber para isso… Essa é para estourar o fone de ouvido de tanto drama. Tem arranjo blues bonito, pena que seja tão curtinha, só dois minutos. Lembra Amy Winehouse no começo, depois perde a linha.

13 – “Close to you” – Balada ao piano tradicional de Rihanna. Mas não estoura em um grande refrão pop, como faria em outro disco. Introspectiva e envolvente, como o resto do disco.

Rihanna lança oitavo disco, 'Anti' (Foto: Divulgação)
Rihanna lança oitavo disco, ‘Anti’ (Foto: Divulgação)

 

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