Péri canta Caymmi em seu 9º álbum, o inédito “O Bem do Mar”

O lançamento é hoje, 09/10, nas plataformas digitais. No repertório, 15 músicas da fase praieira da obra de Caymmi, gravadas numa versão minimalista, apenas voz e guitarra semi-acústica. Uma reverência ao mestre, ao mar, ao cancioneiro popular brasileiro e às metáforas da visão de mundo de ambos os artistas

Dois homens, pais, artistas, compositores, cantores, baianos, soteropolitanos, que aprenderam muito cedo a amar o mar e a tocar violão, sozinhos. Esses são, resumidamente, Péri e Dorival Caymmi Caymmi (1914 – 2008), que nasceram com meio século de diferença, mas desde a infância estão ligados pelo mar, pela música e pela Bahia, assim como pelo dom e pelo propósito de compartilhar com as pessoas a sua interpretação do mundo e dos sentimentos universais por meio de suas obras musicais.

“Sempre senti que de alguma forma ele influenciou minha obra, minha atitude, minha visão de mundo como artista. O entendimento dele do mar e das pessoas do mar sempre me encantou e assim eu o mantive perto da minha necessidade de ser artista, de ser compositor e de também expressar meus sentimentos. Tomei Caymmi como uma inspiração, uma régua importante, um companheiro de jornada. Caymmi sabe tudo, é nosso eterno farol”, declara Péri, que se prepara para fazer o lançamento nacional do seu novo trabalho cantando Caymmi.

Foi o avô, de mesmo nome, Periandro, que contou a Péri as primeiras histórias de Caymmi sobre o mar, o vento e a noite, os pescadores, jangadas e saveiros, elementos construtores da música popular brasileira de todos os tempos e de todos os Santos, hábitos, costumes e tradições do povo baiano que ajudaram Caymmi a desenvolver um estilo pessoal de compor e cantar, com muita espontaneidade e versos melódicos.

“Meu avô Periandro veraneava no bairro de Itapuã no começo do século e nos contava muitas histórias. Depois minha família foi morar lá, bem perto do mar e eu vivia na praia. Também passeava muito na Lagoa Abaeté, ainda criança. Recordo do medo e do mistério que sempre existiu em torno da Lagoa e da beleza das praias da orla do bairro de Piatã, onde ajudei a puxar muita rede de xaréu com os pescadores da zona de Itapuã e daquela parte da costa. Lembro da canoa jogando a rede, puxando e trazendo para a areia e todo mundo na praia ajudando a puxar os peixes, o xaréu brilhando, aquele tom prata, a luz batendo e todo aquele brilho intenso dos peixes pulando dentro da rede. Esse cenário sempre fez parte do meu universo. Caymmi sempre esteve em mim, a inspiração sempre esteve ali, presente, mesmo sem eu saber”, admite Péri, que enquanto pesquisava referências do artista para gravar um novo trabalho autoral, foi arrebatado pela força de suas canções, mergulhou na obra do compositor e saiu de lá com seu 9º álbum.

“O Bem do Mar”

Mesmo sem um planejamento prévio, Péri confessa que gravar Dorival Caymmi foi um sonho, pois era uma vontade e uma necessidade que agora se concretizou.

Eu estava começando a gravar um novo álbum autoral, que eu queria lançar ainda em 2019, quando, no meio do processo dos arranjos, fiquei burilando, tocando algumas canções de Caymmi que eu não tocava há muito tempo. Músicas da primeira fase dele, as canções praieiras, sobre como ele enxergava o mar e as pessoas do mar de Salvador e do Recôncavo Baiano. Fui lembrando das canções, depois peguei song books, gravações antigas e aí esse sentimento foi tomando conta de mim e quando me vi estava parando a gravação do meu disco. Peguei a guitarra e comecei a gravar essas canções dele, estava dentro do estúdio. Caymmi se impôs, não me preparei pra isso, mas aconteceu, tomou conta de mim. E como diz outro mestre, Gilberto Gil, quando Buda Nagô toma conta e se impõe, não se vai contra isso e então eu me deixei levar pela corrente de Caymmi”, revela.

O resultado foi um álbum inédito, o nono de Péri, intitulado “O Bem do Mar”, nome da terceira das 15 canções de Caymmi que ele selecionou do cancioneiro praieiro do artista, pérolas, como “O mar”, “História de pescador” e “Milagre”.

As músicas foram gravadas numa versão minimalista, apenas com voz e guitarra semi-acústica, fazendo dessa elegia  aos clássicos do passado, à simplicidade e à sofisticação de Caymmi, uma nova ponte para o futuro da canção popular brasileira. O que Péri mais gosta em Caymmi são as gravações voz e violão. “É a matriz única e verdadeira do compositor e outro compositor reconhece isso, de onde veio tudo, a pedra fundamental. É na voz e no violão que você percebe a canção e entende tudo”, explica. Mas ele completa dizendo que não queria se repetir e pegou a guitarra quando começou a tocar para tentar trazer as canções um pouco mais para o universo atual. E deu certo. 

“Comecei a cantar com uma guitarra semi-acústica que eu tinha no estúdio e tudo tomou força, rapidamente. Quando me dei conta do quanto Caymmi já estava dentro de mim, pronto pra sair, eu disse sim para dar vazão a todo o entendimento da obra dele na voz e guitarra, uma releitura do meu gosto pessoal de ouvi-lo cantar voz e violão. Quis reproduzir isso para homenageá-lo de alguma forma, dando todo o sentido ao que ele quis dizer apenas numa só voz e num instrumento, sem muitos recursos de arranjos, de banda, de outros músicos. Usei o princípio da composição, uma voz e um instrumento”, conceitua Péri.

Ele afirma que dessa forma é possível entender melhor a voz e a composição do artista. E o toque original da gravação com a guitarra semi-acústica agradou e manteve o tom de mistério que ele compreendia que existia nas composições e na obra de Caymmi a partir do que ele percebeu no começo do século passado e que lhe ajudou a entender o que era o mundo onde vivia.

“É importante mostrar o quanto a obra de Caymmi é atual. Ele foi e continua sendo um dos maiores influenciadores de todos compositores que vieram depois dele. E suas metáforas e construções também continuam atuais. O trabalho, o tempo, as alegrias, desilusões, a relação com a natureza, o desafio da lida, o amor, a saudade, a esperança. Tudo o que Caymmi percebeu do mundo e de sua época se transporta até hoje. Não quis cantar uma simples interpretação lírica sobre o que é o mar, a natureza, um lugar idílico, uma Bahia que se foi com sua doçura, que talvez não exista mais, precisava entender o que ele quis dizer e ao mesmo tempo entender porque eu entendia que aquilo era tão atual e necessário, hoje. O que ele fala continua acontecendo, é um grito de alerta para todos, podemos entender isso e usar Caymmi para compreender o mundo e tentar transformá-lo, melhorá-lo. Essa foi minha epifania”.

Posicionamento

Além dos mistérios, Péri ressalta que as canções praieiras do começo da obra de Caymmi também falavam do mar como sustento de pescadores e suas famílias, uma metáfora muito atual do trabalhador do Brasil, que ainda precisa sair de casa de madrugada, antes do sol nascer, para ganhar seu sustento, enfrentando a violência crescente e o desafio da falta de transporte adequado, de um sistema viário aliado ao sistema habitacional, assim como o pescador enfrenta o vento, a tempestade e as dificuldades do mar.

“Além das dificuldades da vida, a natureza se impõe, inexorável, diante de uma pequena jangada, um pequeno barco, uma pequena canoa, onde alguém está ali para tentar levar seu sustento pra casa. E essa metáfora da pessoa que vai e entra no transporte público antes do sol nascer pra chegar no trabalho e ganhar seu pão de cada dia, entendi que essa era muito atual, mesmo cem anos depois”, analisa o artista.

Péri confessa que está em um novo momento da sua carreira musical, em que faz uma ode à obra de um compositor que ele admira  tão profundamente. “É uma pequena retribuição a tudo o que ele nos deu, fez e continua fazendo, com seus três filhos, Nana, Dori e Danilo, por exemplo, que estão super ativos, levando a própria arte e a do pai mundo afora. Estou muito feliz”, garante.

Os próximos passos também são para comemorar. Péri está planejando seguir em turnê nacional, começando pela Bahia, em Salvador, e, posteriormente, internacional, com expectativa de parada no Japão.  “Pretendo interpretar essas canções em um show e talvez apresente também uma ou duas músicas da minha autoria para ilustrar de que forma um compositor pode influenciar outro compositor”, adianta.

Ele afirma que a expectativa de estar perto do público é grande, pois é onde sempre preferi estar. “Como artista, adoro gravar, gosto muito do ambiente de gravação dentro do estúdio, me realizo muito gravando, testando, observando para onde vão as canções, a mensagem que elas possam levar para o mundo por meio das gravações, mas quando você faz uma apresentação, maduro no entendimento e na execução da obra, pois já gravou, já tocou e já ensaiou, o show é muito melhor, e é onde eu me sinto pleno pra cantar e tocar. Não sou muito de falar em show, mas estar no palco tocando e cantando me faz pleno”.

Péri também promete retomar o disco autoral em 2020, pois acredita que a sua função de artista e compositor também passa pelo compromisso de mostrar a própria obra e revelar sua interpretação do mundo. “Logo vou retomar a produção desde álbum autoral e como estarei ainda mais influenciado pelas  referências da obra de Caymmi na minha, vamos descobrir qual vai ser o resultado disso”, reflete o compositor, que também já foi gravado pelas cantoras Gal Costa, Jussara Silveira, Margareth Menezes, Ceumar, Bia Goes, Ione Papas, Vania Abreu, Eliana Printes e Adriana Dre.

 

Manifesto, por Péri

“O Brasil é o país do futuro”,

uma mentira, uma mentira contada

um milhão de vezes.

Não existe construção futura sem consciência do passado, não existe país nem alma antes que as devidas pedras estejam assentadas, e as dores e alegrias estejam afirmadas sobre a mesma luz, o mesmo olhar.

Olhar pra frente é sempre bom, e também parece que é sempre o certo a se fazer: esquecer o que passou e seguir adiante em busca do que virá; a redenção.

Mas antes de celebrar o que ainda não aconteceu, devemos também celebrar os feitos dos que ajudaram a construir o que somos, e o que não somos hoje.

Celebrar o passado é revigorar a vontade, o desejo, é entender a construção das ideias e do porquê de sermos assim e de não sermos. Se aceito, compreendido e desvendado, o passado pode ser o que nos liberta e também o que nos leva a seguir em frente. Com mais leveza e coragem.

Muitas promessas de grandeza acompanham a nossa história e, em simetria, muitas revoltas por esses desejos nunca realizados também. Revoltas caladas à fogo e aço, escondidas nos descaminhos da história oficial.

Mas vivas em corações e mentes da gente mais simples que na cultura popular soube expressar tão bem o seu lado da verdade. O seu jeito de ver o mundo, suas esperanças e desventuras, seu conhecimento das coisas do céu, da terra e do mar.

Caymmi cantou divinamente o mar e seus pertences, mas não foi de outro mundo que ele veio, ele veio de nós. Veio depois de Palmares, da Conjuração, veio depois da revolta dos Malês, de uma abolição sem reparo nem desculpas, veio depois de Canudos, veio depois de uma promessa de república que nasceu à serviço de poucos, veio depois do que poderia ter sido e não se realizou.

Caymmi é a revolta do sal e da doçura, do doce da cana dos engenhos onde por mais de 300 anos nossa alma escravizada chorou e cantou de saudade e desejo. O canto de Caymmi é filho dos africanos escravizados, imigrantes forçados das galés com os imigrantes brancos forçados da Europa miserável de fome. Todos enganados e forçados a construir um país assentado sob as aldeias de um milenar povo nativo e invadido.

O canto de Caymmi é a síntese perfeita da nossa existência, do passado que amedronta e do futuro que não vinga, de quem vai e de quem fica, de quem vive e de quem morre, de quem faz o que tem que fazer, em todos os planos, da luta e da labuta, de quem acredita, de quem ama, de quem se revolta, da coragem e do medo, de quem se deixa levar pelo vento, pelo mar e pelas estrelas.”

Fonte: Core Comunicação / Fotos: Divulgação

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