Novo CD de Hamilton de Holanda homenageia a obra de Milton Nascimento

Na época do movimento pelas Diretas Já, em 1984, Hamilton de Holanda, 41, ainda era uma criança e, embora não estivesse envolvido com o que parte da população reivindicava nas ruas, uma música já o emocionava: “Coração de Estudante”. “As pessoas cantavam na rua, a gente ouvia no rádio, na TV. A música passava uma emoção diferente, inclusive com esse poder de, mesmo não sendo uma canção propriamente política, mobilizar as pessoas para um objetivo comum”, recorda.

Agora, Holanda tem a oportunidade de homenagear um dos autores do chamado hino das Diretas Já (a música é uma parceria de Milton com Wagner Tiso) com “Casa de Bituca” (Biscoito Fino), álbum que também marca os dez anos de trajetória do seu quinteto de músicos, formado por ele, André Vasconcellos (baixo elétrico), Daniel Santiago (violão), Gabriel Grossi (harmonica) e Marcio Bahia (bateria). “O álbum é uma maneira de comemorar nosso aniversário e também celebrar o encontro com a música do Milton, que sempre foi presente na vida de todos do grupo, porque a música dele tem essa força de ser simples e sofisticada. Para mim ela inspira, principalmente, a amizade”, conceitua o entrevistado, que conheceu Milton, pessoalmente, em 2006.

Participações. Fruto desses primeiros encontros, a faixa-bônus “Guerra e Paz I” apresenta dueto do grupo com Bituca, e é uma das únicas do álbum não compostas pelo homenageado. “Essa música faz parte do meu projeto ‘Brasilianos’, que gerou três discos e, num deles, tem essa canção. Ela foi inspirada no quadro do Cândido Portinari (1903- 1962) que dá nome à música e também na musicalidade do Milton, então era natural convidá-lo, e foi muito bom ele ter topado”, elogia Holanda.

A outra canção a não trazer a assinatura de Bituca é “Mar da Indiferença”, parceria de Holanda com Marcos Portinari (que apesar da coincidência do sobrenome não guarda parentesco com o pintor). “Quando vi a foto daquele garotinho sírio morto numa praia da Turquia, fiquei com um sentimento de engasgado, passei o dia todo triste, pra baixo. Numa hora peguei o violão e, com o sentimento que eu estava, saiu essa melodia. Liguei para o Marcos, que escreveu uma linda poesia para a canção, soube criar esse ambiente de uma música triste que fala de esperança, e acho que a música do Milton tem esse lado humanista, de preocupação com o meio-ambiente, o social, o próximo”, diz o bandolinista.

Outra peculiaridade da canção é a presença da voz do bandolinista, famoso, principalmente, por empunhar o instrumento. “Eu adoro cantar e, o fato de tocar música instrumental não significa que eu não goste de canções cantadas. Neste caso específico, o importante era passar a mensagem da letra, e para isso era necessária a palavra. Mas eu canto o tempo todo, principalmente em casa”, confidencia.

Aliás, Holanda leva sua casa para a “Casa de Bituca”, literalmente. No coro de “Mar da Indiferença” participam as crias dos músicos; todas crianças e até bebês de colo. “Foi uma ideia singela que tive, porque a música é isso, a perda de uma criança, e as outras que estão aí para melhorar o futuro”, afiança. Além da filharada e do próprio homenageado, o disco ainda traz outra participação especial. “Travessia” ganha a interpretação de Alcione. “São músicas que precisam de grandes vozes, e a Alcione personifica isso, ela é o próprio canto popular brasileiro. Várias músicas ficaram de fora, mas essa não poderia faltar. Dava para fazer uns quatro discos com o melhor do repertório do Milton, tranquilamente, mas, para chegar às nove do disco, procuramos essa essência da obra dele, algo que trouxesse o aconchego do lar. Porque o Milton é próximo de todos nós brasileiros”, assegura o músico carioca.

Encontro. Clássicos do repertório de Milton Nascimento como “Bola de Meia, Bola de Gude” e “Canção da América” estão no álbum

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