História de Ignácio de Loyola Brandão emociona no Flipoços

Pela terceira vez no Festival Literário de Poços de Caldas, o Flipoços, o escritor Ignácio de Loyola Brandão fez uma palestra sobre o livro “Os olhos cegos dos cavalos loucos” e emocionou o público ao contar uma história íntima sobre a própria infância e a vida do avô em Matão (SP) e Araraquara (SP), no interior de São Paulo.

De acordo com o cronista, trata-se de uma obra que levou 79 anos para ser escrita e remete a um fato que aconteceu quando ele tinha apenas 9 anos e que o marcou profundamente.

Segundo Brandão, o livro passou por 20 versões até ganhar a definitiva, em 2013, e ser publicada. Embora tenha ganhado o prêmio Jabuti com a obra, ele não acredita que seja exclusivamente infanto-juvenil. “Isso é uma bobagem. Eu faço literatura e pronto”, declarou, antes de se emocionar e encantar o público com o relato que consta no livro.brandao2

“Meu avô era marceneiro em Matão e certa vez, resolveu construir um carrossel. Ele trabalhou por meses neste carrossel, pesquisando, desenhando e quando ficou pronto, percorria as cidades da região com aquilo e era uma festa total, até que um dia, o carrossel pegou fogo e ficou completamente destruído, a única coisa que sobrou foram as bolinhas de gude que eram os olhos dos cavalos”, relatou.

Segundo o autor, as bolinhas ficaram guardadas por muitos anos em uma caixinha, numa das prateleiras da marcenaria do avô, até que ele as encontrou.

Com o mistério de não poder abrir a caixinha e com a fala da avó, que disse que aquilo eram “os olhos dos cavalos”, Brandão encontrou as bolinhas de gude, que perdeu uma a uma em jogos com os amigos.

“Meu avô, quando viu que as bolinhas não estavam mais na caixa, ficou decepcionadíssimo. Ele entrou em depressão. Minha avó dizia que ele poderia morrer e eu achava que eu era o culpado. Imagina uma criança de 9 anos pensando que pode ser culpado pela possível morte do avô?!”, contou.

A história narrada por Brandão, com riqueza de detalhes – e no livro, com riqueza de ilustrações – emociona e entretém não apenas os adultos, mas as crianças e embora ele recuse o rótulo de literatura infanto-juvenil, vai ao encontro da proposta do tema do festival,  que é “A literatura como o resgate da velha infância”.

“Toda vez que eu conto essa história, eu me emociono. Na medida que eu relato, meu avô está me ouvindo e me perdoando”, disse.

 

Idade, coleção de perdas e projetos


Às vésperas de completar 80 anos, Brandão critica expressões como “idoso” ou “terceira idade” e declara: “eu sou velho. Por que este preconceito com a velhice?”

Para ele, que já teve um aneurisma, não existe medo da morte, mas uma enorme paixão pela vida. Também não existe pressa. “Eu gosto da vida. A velhice não acaba com ninguém como acham. É claro que o corpo já não responde tão bem como quando você é jovem, mas eu estou vivendo, viajando, escrevendo. Mas também não tenho o espírito jovem. Eu tenho o espírito de um homem de 79 anos, com as melancolias e alegrias que existem”, resumiu.

Fazendo jus ao que disse, Brandão possui vários projetos em andamento, como um livro institucional sobre uma cancerologista, o roteiro de um curta-metragem para o filho e o roteiro de um filme da Maysa para a filha, que também é cantora, além das crônicas semanais e quinzenais que entrega para jornais.

“Eu estou na ativa e costumo brincar que não quero homenagens, mas caso forem fazer, que o façam em vida. Como fiz a Lygia Fagundes Telles, ‘Glórias frias não me interessam’. A única coisa chata da idade é a coleção de perdas. O aneurisma que tive me mostrou que a vida é muito frágil. Eu nunca sei se vou terminar a minha fala.  Quando eu morrer, quero, por favor, que coloquem na minha lápide: estou aqui contra a minha vontade”, finalizou.

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