Estreia hoje um dos fortes filmes candidatos ao Oscar: ‘Três anúncios para um crime’

Se há uma característica comum a vários dos filmes indicados ao Oscar deste ano é o fato de acompanharem pessoas, principalmente mulheres, cujas vozes são sufocadas por um certo padrão social elitista e racista. Uma das estreias de hoje nos cinemas, o drama policial “Três Anúncios para um Crime” aborda essa questão de uma maneira inusitada em relação aos seus concorrentes.
Passado em um cidadezinha típica da chamada América Profunda– bastião dos valores ianques mais conservadores– o filme nos propõe exatamente o contrário de boa parte dos thriller que se sustentam numa investigação criminosa. No lugar de apresentar as várias dúvidas que vão se clareando no decorrer da narrativa, até chegar às causas e aos culpados, a produção parte de certezas que se desintegram ao final.
Apesar de estar bem na bolsa de apostas do Oscar, pesa contra o filme o fato de Martin McDonagh não ter sido indicado na categoria de direção
Já nos seus primeiros movimentos, vemos uma mãe determinada que paga por um anúncio em três outdoors de beira de estrada, numa pequena cidade do Missouri. Ela está convicta do que está fazendo, ao responsabilizar publicamente o chefe de polícia local pela falta de empenho na apuração da morte de sua filha, há um ano. Assim, temos bem claro quem são os mocinhos e os bandidos da história.
Reviravolta
A metade inicial do filme de Martin McDonagh se escora no confronto entre a mãe solitária Mildred (Frances McDormand, que deve levar a estatueta de melhor atriz) e a corporação – para não dizer a cidade inteira, já que o delegado Willoughby (Woody Harrelson, também indicado) tem o apoio da população, especialmente por estar com câncer terminal. As piadas racistas dele pouco são levadas em conta.
O conflito indivíduo versus coletivo já alimentou diversos filmes, mas não é exatamente o que interessa a McDonagh. Para reforçar essa ideia, os papéis chegam quase a se inverter. A personagem de Frances não faz questão de ganhar a adesão do espectador, a não ser pelas suas motivações, amparadas pelo desejo de descobrir e pôr na cadeia quem estuprou e matou a filha.
Frances McDormand está muito perto de ganhar seu segundo Oscar, após vencer em 1996 por “Fargo”, também passado no interior e recheado de humor negro
Mas até esse aspecto ganha peso relativo quando tomamos contato com as famílias de Willoughby e Mildred, oferecendo outras camadas para o que tínhamos, até então, como algo cristalino. Esta mudança de perspectiva pode incomodar um pouco – as cenas com as filhas e as esposa do delegado parecem saídas de um comercial de margarina, destoando do tom ácido empregado no resto da narrativa.
Aos poucos, porém, o filme consegue estruturar essa reviravolta, quando os dois extremos do início da trama de certa maneira se convergem para o personagem de Sam Rockwell, um típico policial WASP– o norte-americano conservador, racista, ignóbil. Ele se torna o grande protagonista de “Três Anúncios para um Crime”, portador da mensagem principal de McDonagh, autor do roteiro, sobre as proporções que um sentimento de raiva abafada podem gerar.
O que sabemos sobre Mildred não é muito, mas o suficiente para vislumbrar décadas de opressão machista, exemplificado no ex-marido que escolhe uma garotinha tola para namorar. A condução seria pesada se o diretor não fizesse de cada diálogo um primor de humor negro e absurdo, como nos filmes dos irmãos Coen, escancarando a América Profunda em sua soberba e pequenez.
Fonte: Hoje em Dia / Foto: Fox/Divulgação

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