‘Aos Teus Olhos’: As frágeis relações humanas

Daniel Oliveira vive um professor de natação infantil acusado de assediar um de seus alunos

A cineasta Carolina Jabor comenta o lançamento de seu segundo longa de ficção e sua temática polêmica.

Como é lançar este filme num momento em que se discute tanto o assédio sexual?

Mudou a forma como eu vejo o filme. Na mesma época em que “Aos Teus Olhos” foi exibido no Festival do Rio, eu soube do Wagner Schwartz (artista da performance “La Bête”, acusado de pedofilia, após divulgação de imagens em que uma criança aparece acompanhando suas ações). Linchamentos como o dele são tristes, injustos. Ele se trancou em casa, não teve como se defender, tamanha a violência. E é um rapaz delicadíssimo, calmo, que estava fazendo o trabalho dele. Vimos um julgamento pré-instalado, no qual todos opinam e condenam. Nas redes sociais, é possível criar movimentos lindos, mas também há o lado ruim. Com a internet, o poder do indivíduo de fazer justiça com as próprias mãos ganhou força. Então, abandonei a vaidade de querer simplesmente exibir o filme e ver como ele seria recebido, porque ele passou a dialogar com a “vida real”. Não sou ativista e não vou às ruas, mas meu desejo é tratar de temas contemporâneos, pois vivemos num momento tenso de mudanças de comunicação, afeto e relações humanas.

E no caso do assédio sexual? As denúncias formaram um movimento muito elogiado, mas várias também vieram sem provas.

Após a (roteirista e ativista feminista) Antonia Pellegrino dar espaço (no blog #AgoraÉQueSãoElas) para a denúncia de assédio sexual contra José Mayer, eu soube que muitas outras mulheres a procuraram para fazer novas denúncias. Mas ela responde que, antes, é necessário investigar e pede que não saiam colocando acusações nas redes sociais. Elas são as últimas ferramentas para quem não consegue ser ouvido.

As pessoas não acreditam mais nas instituições? A saída é acusar on-line?

Hoje, você não acredita que a justiça é possível. Hashtags como #PrimeiroAssédio são poderosas, ultrapassam fronteiras e tornam-se um movimento mundial. Fiquei tentando lembrar se eu mesma havia sido vítima de assédio, mas graças a Deus nunca sofri nem testemunhei. Se conseguirmos dar à evolução a mesma força que damos ao lado selvagem, é possível reeducar situações e uma geração. Agora, os homens vão ficar com mais medo de assediar. Mesmo em casos como da Marielle Franco, você vê uma sociedade lutando contra a impunidade. Sem as redes sociais, você ficaria menor, lutando só na Cinelândia. Quem sofre assédio tem que ter voz. Não sei se a primeira etapa é ir ao Facebook, mas de alguma forma é importante se manifestar.

O filme também discute se a denúncia contra o professor seria agravada caso ele fosse homossexual. Isso é indício de uma sociedade conservadora?

Eu achava inacreditável termos de falar sobre igualdade de gênero e raça hoje, mas, se não levantarmos bandeiras, a luta não será fortalecida. A gente não pode simplesmente não ser racista: tem que ser antirracista, ser contra os preconceituosos. Hoje em dia, temos que nos posicionar. No filme, o pai do menino urge em saber se o professor é homossexual, porque na cabeça dele seria uma prova de que o filho sofreu abuso. É uma sociedade conservadora. Me perguntaram como seria o filme caso o acusado fosse uma mulher. Talvez não teria feito o filme, porque o gesto possivelmente seria visto como um ato maternal.

Fonte: O Tempo / Foto: Daniel Chiacos

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