ABL exibe originais manuscritos por Machado de Assis no fim de sua vida

Esaú e Jacó (1904) e Memorial de Aires (1908), seus dois últimos romances, e o poema O Almada estão disponíveis desde dezembro. Os usuários podem olhar com a lupa digital as 825 páginas que contam a história dos gêmeos Paulo e Pedro, as 466 em que o Conselheiro Aires narra suas memórias e as 210 do “poema heroico-cômico em oito cantos”, este pouco conhecido, publicado na obra póstuma Outras Relíquias (1910).
São raridades que apenas os consultores do arquivo da ABL podiam conhecer. A demanda vinha de pesquisadores do Brasil e do mundo. “A digitalização atende tanto ao curioso, que se pergunta como o autor chegou a seu texto e como era seu trabalho, e que, assim, terá a oportunidade de perceber que é algo árduo, quanto ao público especializado”, disse o presidente da academia, Domício Proença Filho, professor, estudioso de Machado e autor de livros sobre ele.
“O teórico de literatura terá bastante material para trabalhar a chamada crítica genética, que investiga a origem do texto. O manuscrito permite o cotejo para se chegar à fixação do texto definitivo do autor que trouxe a literatura brasileira para a modernidade”, explicou.
Machado foi o escolhido para dar início à divulgação dos originais no site por ter sido seu fundador e primeiro presidente e por seu papel de pilar da literatura brasileira.
A academia não tem outros originais de livros do Bruxo do Cosme Velho. Ainda este ano, vai colocar online sua correspondência, que já saiu em livro. São cartas trocadas entre 1860 e 1908 com interlocutores diversos. Em Esaú e Jacó, Memorial de Aires e O Almada, existe a dificuldade de se entender a caligrafia de Machado (que era considerada de difícil compreensão por seus editores) sobre o papel envelhecido e sob a marca d’água da ABL, mas os obstáculos não tiram o encanto da experiência de se estar diante das folhas pelas quais passou seu tinteiro, e de poder observar a ortografia da época.
A análise dos originais é uma forma de dirimir dúvidas sobre um autor que teve edições controversas, pouco cuidadosas, que mutilaram algumas de suas criações.
A importância da fixação do texto é tamanha que foi formada, em 1958 – por ocasião dos 50 anos de sua morte e da entrada de sua obra em domínio público -, a Comissão Machado de Assis, no âmbito do então ministério da Educação e Cultura. A determinação foi do presidente Juscelino Kubitschek, em reconhecimento da baixa qualidade das edições dos livros do escritor. O filólogo e acadêmico Antônio Houaiss estava na comissão.
Criado no ano de 1943, o arquivo, dirigido pelo acadêmico José Murilo de Carvalho desde 2012, abriga acervos pessoais de todos os acadêmicos que já passaram pela casa, fundada em 1897 (cerca de 300) e ainda os patronos das 40 cadeiras – escolhidos então pelos fundadores. Dele constam fotografias, cartas, recortes de jornais, livros e outros documentos de praticamente todos os nomes mais importantes da literatura nacional, como Euclides da Cunha, Castro Alves, Bernardo Guimarães, Guimarães Rosa e João Cabral de Melo Neto.
Tudo está acondicionado no prédio anexo da ABL, junto ao histórico Petit Trianon, no centro do Rio. O arquivo passou por uma reforma e hoje ocupa uma área climatizada e resguardada de incêndios por um sistema que não utiliza água (o que poderia destruir os papéis), mas gás.
“O arquivo é antigo, mas ganhou importância mais recentemente. A longo prazo queremos que tudo esteja disponível. São 500 metros lineares de arquivo de texto, além do material audiovisual e iconográfico, num total de mais de 40 mil itens”, disse Carvalho.
Há acadêmicos que doam em vida seus acervos, na certeza de que terão o material preservado para a eternidade. O cineasta Nelson Pereira dos Santos vem fazendo isso, assim como o escritor Marcos Villaça, no passado recente. Entre os últimos falecidos, tiveram esse cuidado o poeta Ivan Junqueira, 1934-2014, e o jornalista Luiz Paulo Horta, 1943-2008. Outros documentos são entregues pelas famílias postumamente, contou o historiador.
“É uma opinião minha, compartilhada com outros acadêmicos: a única imortalidade que nós temos, e precária, está na biblioteca e no arquivo”, considera Carvalho.
Recentemente, a casa viu chegar os dos acadêmicos Rodrigo Octavio (1866-1944) e José Veríssimo (1857-1916), dois dos fundadores, que serão importantes para revelar detalhes dos primeiros anos – o escritório de José Veríssimo foi cenário das reuniões que precederam a fundação -, e do jornalista Austregésilo de Athayde (1898-1993). As atas das reuniões desses 119 anos da ABL futuramente também estarão na internet.

‘Esaú e Jacó’ e ‘Memorial de Aires’ mostram o processo criativo do autor
‘Esaú e Jacó’ e ‘Memorial de Aires’ mostram o processo criativo do autor

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