Um partido dividido por Trump

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A Convenção Republicana em Cleveland, Ohio, que indicará formalmente Donald Trump hoje como candidato à Presidência dos Estados Unidos, representa a maior inflexão na história do Grand Old Party (GOP), o grande e velho partido, desde pelo menos os tempos de Herbert Hoover. Ainda é uma incógnita se Trump vencerá a eleição contra a democrata Hillary Clinton. Mas é uma certeza que suas marcas no GOP serão profundas. Depois dele, o partido não será o mesmo.

A imprensa americana se divertiu com as desculpas de vários líderes republicanos tradicionais para evitar comparecer ao evento. O ex-candidato e senador John McCain disse que estaria no Grand Canyon com o também senador Lindsey Graham. Outro senador disse que tinha uma pescaria, e um terceiro, que precisava aparar a grama. Os dois ex-presidentes Bush não foram. O próprio governador de Ohio, John Kasich, hesitava. Ele foi duramente atacado no discurso do coordenador da campanha de Trump, Paul Manafort.

Na abertura, a estrela principal foi a mulher de Trump, a ex-modelo Melania Knauss (foto) – uma imigrante eslovena, cujo discurso copiou frases ditas pela primeira-dama Michelle Obama na Convenção Democrata de 2008. Delegados insatisfeitos saíram da Convenção em protesto contra decisão de indicar Trump por aclamação, sem uma contagem formal de votos. Bate-bocas tomaram conta do plenário. Os republicanos estão divididos.

Embora não se saiba o que o GOP se tornará depois de novembro, a ascensão do “trumpismo” já modificou pontos centrais de sua plataforma. Transformou um partido que defendia o Estado mínimo, cuja unidade estava fundamentada na visão pró-negócios e pró-mercado livre, numa agremiação indentificada pela retórica do ressentimento contra os imigrantes e pelo nacionalismo.

A plataforma republicana, que deverá ser aprovada pela Convenção, abandona a ortodoxia em favor do livre-comércio. Usa termos duros em relação a acordos comerciais com China, fala em “manipulação cambial” e defende a adoção de uma política comercial baseada no slogan “América primeiro”. No campo da imigração, embora não tenha incorporado o delírio trumpista de barrar a entrada de muçulmanos no país ou de expulsar os 11 milhões de ilegais, estabelece explicitamente o desejo de erguer um muro ao longo de toda a fronteira com o México.

O resultado é uma mistura, sem um norte claro, de diversos temas que disputaram a alma do partido ao longo da história. Ao nacionalismo de Trump se unem o conservadorismo religioso, a revolta anti-impostos do Tea Party, o anti-intelectualismo e o sentimento contra as elites, predominante no eleitorado branco sem nível universitário, que se tornou a principal vítima da globalização e da crise financeira de 2008.

Dezenas de pequenos detalhes revelam como o GOP foi tomado pelas alas mais radicais. A plataforma defende o ensino da Bíblia nas escolas públicas, veta as mulheres em posições de combate nas Forças Armadas, chama Jerusalém de “capital indivisível” de Israel, a pornografia de “ameaça pública”, o carvão de “energia limpa” e afirma que a religião deve ser um guia para a elaboração das leis. Ao mesmo tempo, não incorpora medidas defendidas por Trump, em defesa dos direitos dos homossexuais e contra intervenções militares como a Guerra do Iraque.

Depois da derrota de Mitt Romney para Obama, em 2012, os republicanos viveram um momento de contrição. Um diagnóstico elaborado pelo comando partidário levantava a necessidade de alcançar minorias como negros ou latinos, uma parcela do eleitorado crescente e resistente a apoiar o GOP. A ascensão de Trump fez o contrário. Com base no ressentimento contra os imigrantes e as minorias, sua plataforma pretende uma volta a um passado idílico, em que o país era comandado por “americanos” e não pelo discurso “politicamente correto”.

O futuro do GOP dependerá do resultado das eleições de novembro. Se Trump vencer, a ala nacionalista, com apoio dos conservadores religiosos e sociais, sairá vitoriosa. Será um partido mais populista, menos coerrente na economia, mais flexível nas políticas pró-negócios, mais aberto aos benefícios defendidos pelos sindicatos – até a reforma no sistema de saúde promovida por Obama poderá ser incorporada.

Se Trump perder, o racha no partido poderá se aprofundar. Estará rompida a união forjada, desde os anos 1960, entre conservadores religiosos, Wall Street, líderes empresariais e a base no Sul do país, contrária ao movimento pelos direitos civis. Renovar o GOP caberá a uma nova geração, formada por fundamentalistas da liberdade econômica ligados ao Tea Party, conservadores sociais, herdeiros da elite partidária e moderados. O desafio dessa nova coalizão de interesses às vezes antagônicos será atender aos anseios de uma base eleitoral hoje seduzida pelo nacionalismo de Trump.

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