Suspeito de mandar matar servidora pública em Poços consegue liberdade

O empresário João Batista dos Reis, conhecido como João Papelão, foi solto nesta quinta-feira (24) do Presídio de Itajubá (MG), onde cumpria pena. Ele é suspeito de ser o  responsável pela morte da ex-companheira, a servidora pública Andrea Araújo de Almeida, de 34 anos em janeiro de 2014.

Segundo o advogado do empresário, Dório Henrique Ferreira Grossi, ele estava preso desde março de 2014 e nesta quinta-feira foi julgado um recurso de defesa e os desembargadores do Tribunal de Justiça de Minas Gerais (TJMG) concederam a liberdade provisória ao suspeito.

Andréa desapareceu no dia 15 de janeiro, quando voltava para casa após o trabalho. A ossada da servidora foi encontrada dias depois em um cafezal, no distrito de Palmeiral, em Botelhos. A Polícia Civil chegou até os suspeitos após analisar imagens de câmeras de segurança que ficam em frente ao local onde Andréa trabalhava.

Segundo o inquérito policial, o empresário teria pago R$ 50 mil a pistoleiros e mandado executar e desaparecer com o corpo da vítima no dia 15 de janeiro deste ano. O motivo do crime seria um desentendimento por causa de uma partilha de bens.

Partilha e investigação
Os cinco envolvidos no desaparecimento e assassinato da servidora pública foram apresentados pela Polícia Civil em março de 2014.

De acordo com o delegado João Prata, que coordenou toda a investigação na ocasião, o que pode ter motivado o crime foi a partilha de bens. O empresário João Batista tem uma fortuna avaliada em R$ 70 milhões. Segundo o delegado, ele não aceitava os valores pedidos pela funcionária pública. Ambos viveram juntos por 12 anos e ela pedia um acordo de R$ 5 milhões e uma pensão de R$ 10 mil por mês. Ele ofereceu a ela um acordo de R$ 500 mil e uma pensão de R$ 5 mil mensais, mas não foi aceito.

João Batista dos Reis é apontado pela polícia como mandante do crime (Foto: Jéssica Balbino/ G1)João Batista dos Reis é apontado pela polícia como mandante do crime
(Foto: Jéssica Balbino/ G1)
Na época, o suspeito negou participação no crime. “Não mandei matá-la”, disse. Mas de acordo com o delegado Hernanni Perez Vaz, o ex-companheiro da vítima teria pago pessoas para executá-la. “A cabeça da Andrea foi colocada a prêmio por R$ 50 mil”, destacou. Segundo as informações levantadas pelos policiais, o dinheiro seria dividido em duas partes de R$ 25 mil que iriam para dois suspeitos que vieram da cidade de Cândido Sales (BA) apenas para matar Andrea.

Segundo as investigações, para matar Andrea, João teria contado com a ajuda do casal Ednilson Martins de Souza, conhecido como Paulista, de 37 anos e Liliane Gonçalves da Silva, de 29 anos. A mulher teria trabalhado como faxineira na casa do empresário. A função deles teria sido contratar os matadores, Luciano Monteiro Santos, conhecido como Galego, de 30 anos, já foragido da Justiça por roubo e Márcio da Silva Santos, conhecido como Negão, com passagens pela polícia por explosão de caixas eletrônicos e tráfico de drogas.

As prisões
As prisões de cinco suspeitos aconteceram de forma simultânea em março de 2014. Uma equipe do Deoesp viajou para a Bahia, onde prendeu o primeiro suspeito, Luciano Monteiro Santos, de 39 anos, conhecido como Galego. Ele confessou o crime e revelou detalhes, além de entregar o comparsa, Márcio da Silva Santos, conhecido como Negão, de 29 anos, que foi preso oito dias depois na zona rural do município. Ao ser detido, Santos também confessou o crime. Ambos disseram que foram contatados por Paulista – que já estava preso desde dezembro de 2013 por tráfico de drogas – para assassinar a vítima. A companheira de Paulista também foi presa, acusada de ter entrado em contato com os executores do crime.

“Durante os depoimentos eles disseram como armaram todo o esquema. Os dois homens vieram a Poços de Caldas e junto com o João, conheceram toda a rotina da Andrea, o local de trabalho, onde ela morava e o trajeto que fazia diariamente. Dias depois, eles retornaram já para fazer o ‘serviço’. Eles seguiram a vítima do trabalho até próximo da casa dela, onde a renderam, colocaram no carro, levaram para a zona rural entre Poços de Caldas e o distrito de Palmeiral, em Botelhos (MG) e lá um deles desceu do carro com ela, a levou para dentro de um cafezal, mandou que ela ajoelhasse de costas para ele e fez um único disparo na nuca da vítima”, comentou Vaz.

A arma utilizada pelos suspeitos para matar Andrea, um revólver calibre 38,  que teria sido fornecida por João, foi apreendida na Bahia, no terreno de Luciano.

Durante a reconstituição do crime, os envolvidos cooperaram com a polícia e participaram da ação, mostrando como a vítima foi abordada, levada para a zona rural da cidade e assassinada. Os suspeitos estavam em um gol branco, com chassi adulterado, possivelmente furtado no estado da Bahia. O carro foi apreendido e levado para o pátio da delegacia em Poços de Caldas.

Policiais envolvidos na investigação deram detalhes do inquérito (Foto: Jéssica Balbino/ G1)Policiais envolvidos na investigação deram detalhes do inquérito (Foto: Jéssica Balbino/ G1)

Os suspeitos comentaram ainda que além dos R$ 50 mil que seriam pagos por João pela morte da servidora, eles tiveram as viagens custeadas pelo empresário, sendo que a segunda delas já foi para executar o crime. Parte do dinheiro foi depositado na conta bancária da esposa de Luciano, que também foi presa. No entanto, conforme a polícia, ela não teve participação direta e não sabia do crime.

Ainda na reconstituição, os suspeitos disseram que jogaram o celular e a bolsa da vítima durante o trajeto até o cafezal em que ela foi executada. Os objetos foram encontrados dias depois do desaparecimento, por moradores da região.

Amigos de servidora desaparecida fazem campanha por informações em Poços de Caldas (Foto: Reprodução Facebook)

O desaparecimento e o crime
No dia 8 de janeiro, Andrea chegou a registrar um boletim de ocorrência durante uma audiência de conciliação pela falta de pagamento da pensão. O ex-companheiro recebeu voz de prisão, mas ainda no Fórum a polícia constatou que o mandado já tinha sido revogado e ele foi liberado. Ainda de acordo com o advogado da servidora, uma nova audiência entre as partes estava agendada para o dia 6 de fevereiro de 2014.

Segundo a família, Andrea Araújo de Almeida foi abordada por volta de 18h30 do dia 15 de janeiro a caminho de casa, no bairro Jardim Quisisana, onde morava há cerca de um mês. Na hora do fato, ela falava ao telefone com uma das irmãs, que ouviu quando pelo menos dois homens pediram para que ela saísse do carro. O veículo foi localizado abandonado pouco depois. O celular de Andrea foi localizado na zona rural no dia seguinte.

No dia 18 de janeiro, amigos e familiares saíram às ruas de Poços de Caldas em uma manifestação pedindo a participação da população para que pudesse denunciar e ajudar com informações para que a polícia possa resolver o caso. Na tarde do mesmo dia, a bolsa da servidora foi encontrada próximo ao local onde o celular dela já tinha sido encontrado no dia 16 de janeiro. No dia 23 de janeiro, uma ossada foi encontrada em um cafezal na zona rural de Botelhos. O crânio apresentava uma perfuração provavelmente provocada por arma de fogo.

O fato da polícia ter encontrado uma ossada ao invés de um corpo levantou dúvidas sobre se o material seria realmente da servidora. Segundo a Polícia Civil, a decomposição do corpo passa por estágios e se inicia imediatamente após a morte da pessoa. O tempo de decomposição varia de acordo com os agentes externos, como animais, bactérias, exposição ao tempo, que podem acelerar ou retardar esse processo.

O resultado do exame do DNA foi divulgado no dia 7 de abril de 2014 e confirmou que a ossada encontrada na zona rural de Botelhos era da servidora. Após a confirmação, a ossada seguiu para a cidade de Barra do Corda, no Maranhão, onde foi sepultada.

No dia 29 de maio, a primeira audiência de instrução que iria ouvir os acusados do desaparecimento e morte da servidora foi adiada para que a defesa do principal suspeito, o João Papelão, avaliasse um acordo de delação premiada proposto pelo Ministério Público.

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