Psicóloga que prega ‘cura gay’ se diz ‘missionária’

A decisão de um juiz do Distrito Federal de conceder liminar permitindo que psicólogos possam tratar a homossexualidade e aplicar técnicas para a reversão sexual sem sofrer sanções provocou uma onda de repúdio no país ontem.

A ação acatada pelo juiz federal Waldemar Cláudio de Carvalho partiu de 27 psicólogos liderados por Rozângela Alves Justino, psicodramatista e terapeuta que se descreve como missionária. Presbiteriana e dona de uma entidade que se define como associação de “apoio ao ser humano constituída segundo os princípios cristãos”, a principal autora da ação já havia sido punida em 2009 pelo Conselho Federal da Psicologia, que proibiu, ainda em 1999, qualquer abordagem alinhada com a chamada “cura gay”.

A reportagem conseguiu contato com a psicóloga, mas ela não respondeu ao pedido de entrevista. O psicólogo Adriano Lima, colega de grupo de Rozângela, disse o seguinte ao jornal: “Não estamos falando em nome do cristianismo, mas em nome da ciência”.

Lima diz que os psicólogos que moveram a ação não acreditam que a homossexualidade é doença. “Não pretendemos curar ninguém. O objetivo é permitir que uma pessoa em conflito com a sua sexualidade e que queira ser reorientada possa ir ao consultório”, diz.

Adriano Lima afirma que ele e os colegas estão “insatisfeitos” com a Resolução de 01/1999 do CFP, que prevê que “os psicólogos não exercerão qualquer ação que favoreça a patologização de comportamentos ou práticas homoeróticas, nem adotarão ação coercitiva tendente a orientar homossexuais para tratamentos não solicitados”.

A justificativa, segundo Adriano Lima, é que a resolução vigente do CFP “cerceava a liberdade do paciente e do profissional que se sentia intimidado. Isso porque se construiu a ideia de que alguns profissionais estavam promovendo a cura”.

Para psicólogo Roberto Chateaubriand, que trabalha com DSTs na Prefeitura de Belo Horizonte, “o que se vê é um grupo de profissionais que adjetivam a psicologia como cristã”. “Não existe psicologia cristã, budista ou espírita. Além disso, a ação não tem qualquer embasamento científico, está fora de qualquer possibilidade ética da profissão. Estudos realizados ao redor do mundo mostram a ineficácia desse tipo de tratamento e a violência que significa para o sujeito”, afirma.

Há quase 30 anos, a Organização Mundial de Saúde retirou a homossexualidade da lista internacional de doenças. Antes disso, os tratamentos para a reversão sexual (ou terapia de conversão e reparativa, como também é conhecida) previam o uso de técnicas como a lobotomia (intervenção cirúrgica no cérebro) e choques.

No entanto, Lima garante que essas técnicas não são usadas pelo grupo. “O trabalho psicoterápico vai desenvolver a autonomia do paciente para que, nesse processo de autoconhecimento, ele tome as próprias decisões”, garante.

Projeto tenta emplacar ‘tratamento’

BRASÍLIA. A decisão do juiz federal Waldemar Cláudio de Carvalho que permite aos psicólogos oferecerem tratamento contra a homossexualidade não é o único caminho para a “cura gay” avançar no Brasil.

Está na Comissão de Seguridade Social e Família (CSSF) da Câmara dos Deputados um projeto de lei que busca permitir tal tipo de “tratamento” por parte de psicólogos sem que esses sejam punidos.

O projeto é do deputado Ezequiel Teixeira (PTN-RJ) e propõe a aplicação de uma série de terapias com o objetivo de “auxiliar a mudança da orientação sexual, deixando o paciente de ser homossexual para ser heterossexual”.

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Órgãos públicos e artistas se mobilizam

SÃO PAULO. Após a mobilização de artistas nas redes sociais contra a decisão judicial que liberou a terapia de reversão sexual – conhecida como “cura gay” – por psicólogos, órgãos federais e estaduais também se manifestaram em apoio ao público LGBT.

Os Ministérios do Turismo e do Esporte, o Departamento Estadual de Trânsito (Detran-SP), além dos governos do Rio de Janeiro e de Minas Gerais, aderiram à campanha virtual que tem utilizado as hashtags #TrateSeuPreconceito e #HomofobiaêDoença em protesto.

Em post publicado ontem, o Ministério do Turismo escreveu: “Em um país diverso e plural como o nosso, respeito e tolerância são imprescindíveis para que possamos evoluir como sociedade. O Ministério do Turismo acredita que todo turista merece e precisa ser bem tratado em cada cantinho do país”.

Já o Ministério do Esporte publicou a frase “Esporte sem preconceito”, também com as letras coloridas, e utilizou a hashtag #TrateSeuPreconceito.

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