Mulher é agredida e tem turbante jogado no chão em festa de formatura

No último sábado (22), a pedagoga e conselheira do Conselho Nacional de Promoção da Igualdade Racial (CNPIR), Dandara Tonantzin Castro, 23, escolheu um vestido, caprichou na maquiagem e arrumou o cabelo para ir à festa de formatura em engenharia civil de um amigo de infância em Uberlândia, no Triângulo Mineiro. Para completar a produção, ela escolheu um turbante dourado e o acessório – símbolo da cultura negra – parece ter incomodado a alguns presentes a ponto de a mulher ter sido agredida por causa dele. “Quando eu cheguei, já percebi olhares estranhos, mas acabei relaxando e aproveitando a festa”, conta.

No fim da festa, já na manhã de domingo (23), o grupo foi para uma arena no mesmo espaço, onde a comemoração continuaria. Ali, um homem puxou o turbante de Dandara pela primeira vez. “Eu falei para ele tirar a mão da minha cabeça”, diz. Depois, ao passar novamente pelo mesmo homem, ele voltou a puxar o turbante. Ela reagiu e ele, segundo conta, chamou alguns amigos. “Veio outro e jogou meu turbante no chão. Depois, eles começaram a jogar cerveja na minha cabeça e a rir de mim”, lembra. Os amigos de Dandara acionaram a segurança da festa e dois deles foram retirados do local.

O caso foi registrado na Polícia Civil como agressão física motivada por preconceito racial. O órgão afirmou que apura o ocorrido e que não divulgará detalhes para não atrapalhar as investigações. De acordo com Dandara, a delegada não quis registrar o ato como racismo. A Polícia Civil não informou o motivo da recusa. O (CNPIR) acompanha o caso e prepara uma nota em solidariedade a Dandara.

Dandara conta ainda que foi agredida verbalmente e ameaçada pelas namoradas dos rapazes, que a acusaram de ser a responsável pela expulsão deles da festa e queriam que ela também fosse retirada do local.

“Presença que incomoda”

Dandara contou a história em seu Facebook na manhã de domingo e, até as 18h30 desta segunda-feira (24), o post tinha mais de 46 mil curtidas e quase 12 mil compartilhamentos, além de cerca de 8.000 comentários. A maioria das opiniões era de apoio a Dandara, mas também houve quem a acusasse de se fazer de vítima ou querer aparecer. O título da publicação é “A nossa presença incomoda”, porque é exatamente assim que Dandara diz ter se sentido no ambiente.

O conselheiro representante da Sociedade Civil  no CNPIR, Rodger Richer de Santana Rocha, diz que esse tipo de agressão – motivada pelo uso do turbante ou de outro elemento da cultura negra – é comum e que, em muitos casos, não há denúncias. “As pessoas têm medo de denunciar e serem agredidas físicas ou verbalmente e nas redes sociais, acusadas de vitimismo”, diz.

O caso de Dandara quase foi mais um sem registro. “Quando eu saí de lá, eu só queria esquecer. Mas, quando fui contar para a minha mãe, fiquei muito mal e percebi que não podia naturalizar esse caso, agir como se nada tivesse acontecido”, afirma. Ela conta que usa turbantes no cotidiano e já foi alvo de olhares e comentários desrespeitosos, mas nunca tinha sido agredida antes.

Em Minas Gerais, a Secretaria de Segurança Pública informa que foram registrados 298 casos de injúria racial entre janeiro e novembro de 2016. O número é 4% menor do que no mesmo período do ano anterior.

A Universidade Federal de Uberlândia (UFU), onde os formandos estudaram, e o Palácio de Cristal, onde a festa ocorreu, divulgaram notas de repúdio a casos de violência e discriminação. O Palácio de Cristal afirma que seus seguranças conduziram o caso com “todo profissionalismo” e lamentou o ocorrido em suas dependências.

Caso aconteceu no fim de semana e está sendo investigado pela Polícia Civil como agressão física motivada por preconceito racial
Caso aconteceu no fim de semana e está sendo investigado pela Polícia Civil como agressão física motivada por preconceito racial

Fonte: O Tempo

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