Condenação de Dilma seria ‘uma pena de morte política’, diz Cardozo

O ex-ministro José Eduardo Cardozo, advogado de Dilma Rousseff, faz a defesa da presidente afastada no julgamento do processo de impeachment no Senado Federal, em Brasília (Foto: André Dusek/Estadão Conteúdo)
O ex-ministro José Eduardo Cardozo, advogado de Dilma Rousseff, faz a defesa da presidente afastada no julgamento do processo de impeachment no Senado Federal, em Brasília (Foto: André Dusek/Estadão Conteúdo)

Advogado de Dilma Rousseff, o ex-ministro José Eduardo Cardozo afirmou que a condenação da presidente afastada no julgamento do processo de impeachment seria “uma pena de morte política” e “uma execração”. Nesta terça-feira (30), ele fez no Senado a defesa da presidente afastada e disse que a acusação recorre a “pretextos” para condenar Dilma.

Cardozo chorou ao deixar o plenário. Antes dele, haviam discursado a advogada de acusação, Janaína Paschoal, que também chorou. A acusação teve ainda pronuncioamento do advogado Miguel Reale Júnior.

Afirmou ainda daqui a um tempo ninguém se lembrará “do que Dilma é acusada”.

“O que dirão?”, perguntou, antes de responder: “Ela foi acusada porque ousou ganhar uma eleição afrontando interesses daqueles que queriam mudar os fumos do país. Ela foi condenada porque ela ousou não impedir que investigações contra corrupção no Brasil não tivessem continuidade”.

No final do discurso em plenário, o advogado disse esperar que, no futuro, algum ministro da Justiça peça desculpas à presidente afastada, caso ela seja condenada.

“Peço a Deus que, se Dilma for condenada, um novo ministro da Justiça, tenha a dignidade de pedir desculpas a ela; se viva, a ela; se morta, a sua filha e seus netos. Que a história absolva Dilma Rouseff se vossas excelências quiserem condená-las. Mas, se quiserem fazer justiça aos que sofreram violência de estado, julguem pela justiça. Não aceitem que nosso país sofra um golpe parlamentar. Para que Dilma não sofra a pena de morte política”, repetiu.

Aos senadores, concluiu: “Julguem pela justiça, julguem pelo estado de direito, julgem pela democracia”.

Pouco antes, Cardozo havia dito que “Dilma, por ser mulher, foi profundamente discriminada”. “Não me dói como advogado, me dói como ser humano. Não é justo falar o que falaram aqui de Dilma Rousseff. Querem condenar? Condenem, mas não enxovalhem a honra de uma mulher digna. Ela é digna. Convoco os senhores parlamentares, senadores, ex-ministros, todos, para que digam se algum dia receberam uma proposta imoral de Dilma.”

O advogado declarou que se está afastando Dilma sem que o povo saiba qual o “crime hediondo” do qual ela está sendo acusada.

Cardozo lembrou Dilma na Ditadura
José Eduardo Cardozo abriu seu pronunciamento lembrando que esta não é a primeira vez que Dilma Rousseff “senta no banco dos réus”. Na época da ditadura militar, ela enfrentou auditorias militares em São Paulo, Minas Gerais e Rio de Janeiro.

“Ela era acusada de lutar a favor da democracia e contra a ditadura”, disse. “Lutar. Essa era a acusação que a ela se dirigia.” De acordo com ele, a acusação formal era “um pretexto”: “Era pelo conjunto da obra que os militanrtes eram presos torturados e assassinados”. Para o advogado, a acusação no processo de impeachment recorre ao mesmo expediente do que ele chama de “pretexto”.

‘No minuto seguinte’
Cardozo Disse que o processo de impeachment começou “no minuto seguinte em que Dilma ganha a eleição presidencial”. Citou então aqueles que criticaram o fato de os eleitores da presidente votar “comprados pelo Bolsa Família”. Para o advogado, a partir daí que se passou a buscar um “pretexto para o impeachment”.

Em suas alegações, o advogado da presidente afastada destacou o papel do então presidente da Câmara na época da abertura do processo, Eduardo Cunha. Cardozo disse acreditar que muitos apoiaram Cunha por ver, nele, o homem capaz de desestabilizar o governo. O recado era “parem com a Lava Jato, demitam o ministro da Justiça e o chefe da PF”.

Eduardo Cunha tornou-se então o vértice dos derrotados em 2014 e dos que queriam barrar a Lava Jato, afirmou Cardozo. Naquele momento, o governo perdeu a maioria.

Próxima etapa
Depois do pronunciamento de Cardozo, estão previstas réplica e tréplica de 1h cada para acusação e defesa. Com isso, a fase de debates entre os advogados deve durar, ao todo, 5h.

Após o debate entre os advogados, terá início a fase de manifestação dos senadores sobre o processo.

Cada um terá até 10 minutos para discursar, o que deve fazer com que a sessão se estenda por muitas horas. Caso os 81 senadores decidam se pronunciar pelo tempo máximo, a previsão é de que, só esta fase, dure 13 horas e meia.

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