Artigo: Estamos correndo os mesmos riscos de falta de água de 2014 e 2015?

Antônio Eduardo Giansante

O nível de águas do Sistema Cantareira hoje está abaixo dos 50% e até mesmo daquele de um ano atrás. Isso significa que os riscos são os mesmos de falta de água?

Não! O comportamento da população não voltou a ser igual àquele anterior ao biênio mais seco jamais registrado, 2014/15, houve uma redução em torno de 20% do consumo per capita e os Sistemas Produtores e de distribuição de água potável estão mais interligados, logo mais resilientes e seguros para enfrentar uma estiagem semelhante à ocorrida.

Isso significa que podemos relaxar, porque o risco é baixo?

Também não e doravante, com as lições aprendidas, todos precisam estar mais conscientes em relação ao próprio consumo de água e combater o desperdício que vem de uma época de “sentimento” da água como recurso infindável. Os tempos são outros, abastecer a Região Metropolitana de São Paulo é e continuará sendo um imenso desafio técnico e econômico enquanto permanecer com o porte que tem, demandando mais água do que as condições naturais de disponibilidade hídrica o permitam.

As soluções que até hoje empregamos são suficientes?

Não, atualmente a tecnologia de tratamento de água e de esgotos sanitários avançou a um ponto onde é possível “reciclar” a água, reutilizando para vários usos como a limpeza de ruas, o resfriamento de linhas de produção fabris, entre outros.

Os custos são crescentes e não há como gerar alguma receita para quem opera as estações de tratamento de esgotos?

Sim, a tecnologia plenamente comprovada em países europeus possibilita gerar energia elétrica a partir das impurezas orgânicas separadas da água pelos processos de tratamento de esgotos. Essas unidades produzem energia elétrica suficiente para as suas necessidades a partir dessa “matéria prima” e chegam até a vender o excesso para a rede elétrica pública. Ainda é muito pouco empregada no Brasil.

Tornar o abastecimento de água cada vez mais resiliente às Mudanças Climáticas que provocam as irregularidades de chuvas que estamos vivendo, passa por campanhas permanentes de educação da população para que combata os desperdícios e também pelo emprego de tecnologias plenamente comprovadas em outros países, resultando em sistemas mais resilientes e aumentando a segurança da água.

Antônio Eduardo Giansante é doutor em Engenharia Civil pela Universidade de São Paulo, mestre em Engenharia Hidráulica e Saneamento pela Universidade de São Paulo, graduado em Engenharia Civil pelo Instituto Mauá de Tecnologia e em Física pela Universidade de São Paulo. Atualmente é professor titular da Universidade Presbiteriana Mackenzie e professor convidado da Universitè de Metz e do Politecnico di Bari.

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